
A cidade que decidiu não perder seu Theatro
Preservação e restauro
Uma retroescavadeira entrou no Theatro.
A imagem parece impossível: uma máquina pesada escavando onde antes havia plateia e onde, no futuro, o público voltaria a se sentar. Mas ela revela a dimensão da obra. Para salvar o edifício, não bastava reparar a superfície. Era preciso intervir em fundações, níveis, estruturas, palco, cobertura, instalações e circulação.
Antes da máquina, porém, veio a mobilização. O restauro começou quando a cidade disse que o prédio não poderia desaparecer.
Em um minuto: no início dos anos 1980, o Theatro corria risco de demolição. A reação de artistas e moradores levou o município a comprar o imóvel em duas etapas — 1984 e 1985 —, e o tombamento estadual veio em 1987. A restauração avançou por fases, atravessando governos e gerações, até a reabertura em 2002.
O risco de demolição
No início dos anos 1980, o Theatro era propriedade particular e estava em decadência. Partes do palco haviam sido destruídas ou adaptadas; o interior perdera frisas e camarotes; instalações estavam deterioradas; rachaduras e infiltrações ameaçavam o uso.
Circularam notícias de venda para empreendimentos que poderiam eliminar o edifício. A possibilidade de supermercado, estacionamento ou outro uso incompatível tornou-se símbolo do conflito entre valor econômico imediato e memória coletiva.
Em 1981, o município declarou o imóvel de utilidade pública. A decisão criou um primeiro bloqueio contra a descaracterização, mas ainda faltavam compra, projeto, recursos e proteção patrimonial.

Uma rachadura acima de uma porta — o estado em que a cidade encontrou o Theatro, sob a ameaça de demolição.
Quando artistas tomaram a frente
O restauro só foi possível porque, antes dele, a cidade se recusou a perder o prédio. No início dos anos 1980, artistas e moradores transformaram a ameaça de demolição em causa pública — manifestações, abaixo-assinados (1.026 assinaturas) e uma consulta popular (1.651 participantes) que deram a força política para a compra. Houve também oposição, que via no tombamento um custo alto e uma ameaça à propriedade — conflito que faz parte da história.
Aprofunde-se — a campanha completa, com seus personagens e o impasse: A luta contra a demolição →.
A aquisição em duas etapas
Em janeiro de 1984, a Prefeitura comprou a primeira parte do imóvel. O palco e a área posterior permaneceram inicialmente com o proprietário. A equipe técnica logo percebeu que um teatro funcional exigia o conjunto completo.

Sidney Beraldo e Oliveira Neto — figuras centrais na compra do Theatro pela cidade.
A segunda negociação, baseada na Lei municipal nº 241, de 27 de maio de 1985, foi concluída no dia 28 daquele mês. A compra integral permitiu pensar caixa cênica, camarins, bastidores e acessos de forma coerente. Fontes secundárias citam valores de Cr$ 45 milhões na primeira etapa — em dinheiro e lotes — e Cr$ 100 milhões na segunda; números que devem ser lidos com cautela, sem conversão simples para hoje, já que não há prestação de contas consolidada disponível.
A aquisição em duas etapas não foi um acaso burocrático: comprar primeiro a frente e, depois, o palco e os fundos foi o que tornou possível pensar o Theatro como um conjunto coerente — caixa cênica, camarins e bastidores à altura da sala. Por isso o terreno posterior era decisivo.
A equipe e a aprendizagem
O Projeto de Restauração e Reciclagem, datado de janeiro de 1986, foi coordenado pela arquiteta Ana Laura Barcellos do Amaral Zenun e pelo engenheiro Nilson Zenun. A proposta não era congelar o prédio em 1914, mas recuperar sua espacialidade histórica e adaptá-la ao funcionamento contemporâneo. Após a compra, o município reuniu profissionais de arquitetura, engenharia e artes. Entre os nomes associados ao núcleo inicial estão João Batista Merlin, Ana Laura Barcellos do Amaral Zenun, Nilson Zenun, Joaquim Augusto Azevedo Costa e Mello e José Marcondes.

O engenheiro e restaurador João Batista Merlin, mentor técnico da recuperação, com José Marcondes e Maria Célia.
A equipe não partiu da ideia de que já sabia tudo. Visitou teatros no Rio de Janeiro e em outras cidades, conheceu áreas técnicas, acompanhou espetáculos e conversou com especialistas em cenotecnia, acústica, estrutura e equipamentos.
No documentário, a equipe relembra como a viagem ao Rio foi decisiva. Guiados por Carlos Lafayette de Barcelos, responsável técnico do Theatro Municipal do Rio, passaram uma semana mergulhados num teatro de verdade — os dias inteiros por dentro, "da plateia ao último subsolo", e as noites assistindo a tudo funcionar com os atores. "Vocês têm que primeiro entender de teatro para depois começar o projeto", ouviram. João Batista Merlin, que se somara ao grupo, já restaurara os metais e os lustres do Palácio do Catete.
Há um epílogo amargo. Aprovado o projeto que ele tanto ajudara a viabilizar, Merlin não participou da obra: foi afastado da equipe — “seu mundo pareceu desabar, seus olhos não mais brilhavam”, registrou a amiga Maria Célia Marcondes. Engenheiro formado pela UnB, que restaurara também a Biblioteca Nacional e o Museu de Belas Artes do Rio, ele se voltou então para o restauro da Catedral e a criação do Museu de Arte Sacra da cidade. Foi dele, ainda, o pedido para restaurar as quatro estátuas de mármore de Carrara — as Quatro Estações — que vieram da Praça Armando de Salles e hoje ocupam o foyer do Theatro.
Ao retornar, precisou rever soluções. Em cerca de vinte dias de trabalho concentrado, dezenas de desenhistas e técnicos produziram quase 150 pranchas para apresentar o projeto e buscar recursos.
Essa disposição para aprender é parte importante da história. O restauro não seguiu em linha reta: teve pesquisa, muito erro e revisão pelo caminho — e muita gente aprendendo junto.
Tombamento
O Conselho do CONDEPHAAT aprovou o tombamento em 16 de dezembro de 1985, por unanimidade; a formalização veio com a resolução de 19 de janeiro de 1987. O processo reconheceu o edifício como bem histórico e passou a exigir acompanhamento das intervenções.
O tombamento não pagou a obra nem resolveu tudo. Seu peso foi jurídico e simbólico: dali em diante, o Theatro deixou de ser um imóvel qualquer, à venda para qualquer fim.
Há um detalhe afetivo que o documentário preserva. Era costume, ao se tombar um imóvel, hastear uma bandeira do Brasil em cada janela. Faltavam as bandeiras — e foi pedindo às escolas da cidade que a equipe juntou as doze necessárias para anunciar, na fachada, que o Theatro virara patrimônio público.
Documento-chave
- Processo CONDEPHAAT: 23.125/1984
- Aprovação do Conselho: 16 de dezembro de 1985 (por unanimidade)
- Resolução de tombamento: SC nº 03, de 19 de janeiro de 1987
- Livro do Tombo Histórico: inscrição nº 261, p. 68
Esses documentos formam a base legal da preservação estadual, somada à proteção municipal. No âmbito federal, o processo aberto no IPHAN foi analisado e arquivado em 2017, sem tombamento nacional — a proteção do Theatro é, portanto, estadual e municipal. No plano local, a salvaguarda apoia-se em atos como o processo municipal nº 1.556/08, o Decreto nº 3.334 e o Plano Diretor de 2019, que enquadra o centro histórico e seus bens em parâmetros próprios de preservação.
A obra estrutural
As intervenções incluíram:
- retirada de madeiras atacadas por cupins;
- demolição de acréscimos que descaracterizavam o prédio;
- consolidação de paredes e fundações;
- rebaixamento do subsolo e correção de níveis;
- estrutura metálica para palco e mecanismos cênicos;
- camarins em vários pavimentos;
- escada de emergência e sistemas de incêndio;
- redes elétrica, hidráulica e de esgoto;
- revisão de telhado, calhas e condutores;
- reconstrução de frisas, camarotes, portas e janelas;
- recuperação de fachadas, ornatos e pinturas.

A cobertura em obras, vista do alto — ao fundo, o casario e a torre da igreja.
O rebaixamento das fundações foi executado lentamente. Relatos técnicos registram controle rigoroso do recalque e a necessidade de laudos para responder ao temor de que a escavação pudesse comprometer o edifício.
No documentário, a tensão daqueles dias aparece inteira: "a cidade inteira falava: vai cair, vai cair", com a máquina vibrando lá dentro. Mas os cálculos se confirmaram — o recalque (o afundamento da terra) previsto chegava a seis centímetros e, concluída a obra, mediu-se menos de meio.

A escavação do fosso da orquestra, sob o palco, durante as obras.
Restauro artístico
A recuperação da fachada exigiu pesquisa de cores, ornamentos e revestimentos. Para reencontrar a cor original, uma amostra do reboco antigo foi enviada aos laboratórios da Sherwin-Williams, que reproduziram o pigmento gratuitamente: latas de látex branco foram compradas e devolvidas já tingidas no tom histórico. Capitéis e detalhes receberam tratamento e douração.

Prospecção estratigráfica — pequenas janelas abertas na parede revelam, camada a camada, as cores de cada época. Era assim que se descobria o tom original.
Na boca de cena, o medalhão de Carlos Gomes — pintura original de Ettore Adriano Fabri — foi revelado sob sucessivas camadas de tinta; Romeu Pradela Buzon Filho, o “Grilo”, atuou na recuperação dos ornamentos da fachada, em 1992. A história completa do medalhão tem episódio próprio: O medalhão de Carlos Gomes →.
Algumas decisões foram interpretativas, e a honestidade pede registrá-las como tais: seis espelhos no foyer e as pinturas de ramos de café nas tabeiras foram acréscimos do restauro, inspirados em casas como o Theatro Municipal de São Paulo e o São Pedro — não remanescentes comprovados de 1914.
Uma obra atravessada por governos e gerações
A restauração durou mais que um mandato. Diferentes administrações contribuíram para etapas específicas, com recursos municipais, estaduais, federais, campanhas e incentivos.
Em dezembro de 1992, o foyer foi inaugurado. O espaço passou a receber exposições e recitais, mesmo enquanto o restante permanecia em obra.

A visita do governador Franco Montoro ao Theatro, em 1986 — o apoio estadual que ajudou a destravar o restauro, ao lado do prefeito Nelson Nicolau e do engenheiro João Merlin.
A partir de 1998, a Fundação Oliveira Neto e campanhas comunitárias passaram a captar recursos e a mobilizar a cidade para concluir a obra — fase que tem episódio próprio: A cidade financia seu restauro →. As somas publicadas variam entre cerca de R$ 695,7 mil e R$ 732,2 mil, conforme o recorte contábil — componentes estaduais, federais, da Fundação e municipais somados ao longo de quase dezessete anos, sem prestação de contas consolidada que permita fechar o total com precisão. Em setembro de 2002, a 25ª Semana Guiomar Novaes marcou o reencontro da população com a sala principal.
O documentário guarda a textura daquele dia: já às dez da manhã a fila dava a volta no quarteirão, e a equipe ainda passava o único aspirador que tinha e retirava o plástico das poltronas minutos antes de abrir as portas. Para receber tanta gente sem privilégios, a entrada foi organizada por senhas distribuídas ao longo do dia — um modo de administrar a casa que a nova gestão faria questão de manter.
O edifício continuou vivo durante as obras
O período de restauro não foi de silêncio absoluto. A Escola de Música funcionou em dependências possíveis. O Coral Vozes de São João ensaiou no espaço. Exposições, semanas culturais e apresentações ocuparam áreas ainda inacabadas.
Em 1995, o show Relembranças reuniu público em uma sala com piso bruto e cadeiras emprestadas. Essa imagem é valiosa porque recusa uma divisão simples entre “ruína” e “obra pronta”: a cultura persistiu durante a transformação.
Conservação: um cuidado que continua
Preservar não termina com a reabertura. A própria obra continuou depois de 2002 — o subsolo, por exemplo, só foi concluído em 2010, e parte dos equipamentos cenotécnicos foi sendo completada mais tarde. Desde então, a casa recebeu sobretudo manutenções pontuais. Em 2021, a Prefeitura contratou um estudo técnico de preservação e pintura — conduzido por Lorette Arquitetos, com Antonio Carlos Lorette e Alisson Tavares —, reconhecendo a necessidade de retomar um cuidado mais amplo. Notícias do período registraram, ainda, emendas destinadas à reforma, como R$ 170 mil e, em 2024, R$ 200 mil.
Reportagens locais entre 2023 e 2024 registraram pontos a enfrentar — entre eles a entrada de água da chuva por portas laterais e a fragilidade de esquadrias — e listaram demandas de pintura, palco, camarins, instalações, acessibilidade, som e luz. Em 2024, obras externas e internas avançaram com pintura de fachada, palco e foyer; parte das intervenções, porém, ficou inacabada, e a manutenção preventiva permanece como agenda aberta.

A escavação do fosso da orquestra, sob o palco, com a boca de cena ao fundo, durante as obras.
Esse é o estágio honesto de um edifício de mais de cem anos: vivo e em uso, mas exigindo atenção contínua. A própria história do Theatro mostra que sua conservação sempre dependeu de vontade pública e mobilização — e segue dependendo.

Acrotério da platibanda restaurado — símbolo de um cuidado que precisa continuar.
O que a restauração ensina
A recuperação do Theatro demonstra que preservar é escolher coletivamente. Exige conhecimento técnico, recursos, negociação, paciência e conflito. Também exige uso: depois de salvo, o edifício precisava voltar a produzir encontros.
Essa história pertence tanto a autoridades e especialistas quanto aos trabalhadores de obra, desenhistas, eletricistas, carpinteiros, restauradores, funcionários, artistas, doadores e voluntários.
O restauro devolveu a forma. A programação devolveu a vida.
Destaque do restauro
O medalhão de Carlos Gomes
Passo a passo do restauro: a fotografia do comício de 1919 guiou a decapagem; sob a tinta, o retrato surgiu danificado; recuperado o rosto, os ornamentos em volta foram repintados. Toque em cada imagem para ampliar e ver o detalhe.
A restauração em números e fases
+2.000
assinaturas pela preservação
1984–85
compra do prédio pelo município
1987
tombamento estadual (CONDEPHAAT)
2002
reabertura ao público
Início dos anos 1980
Deterioração e ameaça de demolição mobilizam artistas e cidadãos.
1984–1985
O município adquire o edifício em duas etapas.
1986–1987
Início das obras e tombamento estadual.
1992
Recuperação da fachada e inauguração do Foyer.
Anos 1990
Obra estrutural, fosso da orquestra e restauro artístico dos ornatos.
2002
Reabertura, na 25ª Semana Guiomar Novaes.
O restauro em imagens
Acervo do Theatro Municipal — Prefeitura de São João da Boa Vista.
Filme
Olhares
Um curta sobre o Theatro Municipal de São João da Boa Vista, realizado pela Fundação Oliveira Neto.
Roteiro e direção
Paschoal Neto
Imagens
José F. Bernardi
Edição de imagens
Antônio Carlos Rosa
Trilha sonora
Zezinho Só
Locução
Ricardo Bressan
Apoio técnico
Beto Furtado
Computação
Pedro Prata
Produção
Telecine
Realização
Fundação Oliveira Neto
Filme
A inauguração do foyer, em vídeo
A inauguração do foyer, em dezembro de 1992, com diversas apresentações musicais — o primeiro espaço do Theatro devolvido ao público durante o longo restauro. Ao piano, Vânia Noronha; ao violoncelo, Giorgio Bariolla; no canto, Neusa Menezes e Jamil Cury. Imagens gravadas em câmera VHS por Riolando Gião, no segundo semestre de 1992.
Episódios
Histórias para se aprofundar
Leituras longas que destrincham um episódio da história do Theatro.
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Fontes desta página
Menezes, 2014, pp. 113–170; Processo CONDEPHAAT 23.125/84; depoimentos de Ana Laura Zenun e Nilson Zenun; estudos de Luis Pedro Dragão Jeronimo. Conservação recente: jornal O Município (2024) e comunicações da Prefeitura (2021–2024).