
Episódio · A mobilização que salvou o Theatro (1981–1987)
No início dos anos 1980, o Theatro Municipal não era o patrimônio restaurado de hoje. Era um prédio particular, fechado, degradado — e sob risco real de virar pó. Que ele esteja de pé não foi obra do acaso nem de uma decisão tranquila de gabinete: foi resultado de uma disputa pública, com um ator ameaçando greve de fome, mais de mil assinaturas, uma consulta popular e até a oposição de quem achava tudo aquilo um desperdício. Este episódio reconstrói essa batalha.
Em um minuto: declarado de utilidade pública em 1981, o Theatro continuava ameaçado. O ator Ronaldo Marin anunciou que faria greve de fome acorrentado ao telhado; com Zeza Freitas e outros jovens, reuniu 1.026 assinaturas. Houve oposição — o cronista "JPC" acusava o movimento de querer "tomar o alheio". O prefeito Sidney Beraldo comprou o prédio em duas etapas (1984 e 1985), a cidade votou pelo restauro numa consulta com 1.651 participantes, e o CONDEPHAAT tombou o edifício, formalmente, em 1987.
Um prédio que parecia sobrar
O Theatro nascera, em 1914, de uma sociedade por ações — a Companhia Teatral Sanjoanense. Décadas depois, sem atividade e endividada, a empresa foi à liquidação judicial entre 1977 e 1978, e o edifício, sob controle do Dr. Joaquim José de Oliveira Neto, virou um problema: caro de manter, deteriorado, fora de uso.

O jornal A Cidade de São João, 13 de maio de 1978 — o edital judicial da liquidação da Companhia Teatral Sanjoanense, que selou o fim da sociedade que ergueu o Theatro.
Circulavam rumores de venda e demolição — para dar lugar a um supermercado, a um estacionamento. Em 1981, sob o prefeito Nelson Nicolau, a Lei Municipal nº 219 declarou o imóvel de utilidade pública. Foi uma proteção inicial importante, mas insuficiente: o prédio seguia particular, e a ameaça, de pé.

O Theatro deteriorado, no período de declínio — para muitos, um "casarão velho"; para outros, a memória da cidade prestes a virar entulho.
Voz do filme · “Uma vez eu trouxe o Sady Cabral para ser jurado de carnaval, e ele quis conhecer o teatro. Quando entrou, teve uma crise de choro: o teatro estava destruído.” — ouvir no documentário (46:30) →
Ronaldo Marin e a greve de fome
A reação não veio dos gabinetes — veio do palco e da rua. O ator Ronaldo Marin, um dos precursores do movimento, anunciou que permaneceria em greve de fome, acorrentado ao telhado do edifício, caso não se garantisse sua preservação. Sua esposa, a bailarina Zeza Freitas, contou depois como tudo começou:
"Quando descobriu que o teatro ia ser vendido e demolido, ficou maluco. O Ronaldo, com cabeça europeia, espírito jovem e destemido, encabeçou um movimento para não deixar isso acontecer. Junto com outros jovens, colheu milhares de assinaturas de porta em porta, fizemos happening em frente ao Theatro… e, não vendo resultado, deu uma entrevista para o jornal da cidade falando que, se não tomassem uma decisão, ele iria se amarrar no topo do prédio e fazer greve de fome até decidirem não demolir. Chamou a atenção da mídia, o SBT divulgou no jornal televisivo, e as coisas começaram a mudar."
A ameaça performática — um artista usando o próprio corpo como cena pública — funcionou: diante da repercussão, o prefeito Sidney Estanislau Beraldo prometeu manter e reabilitar o edifício.
Uma ideia vinda da Europa
Há um detalhe que a pesquisa de Luis Pedro Dragão Jeronimo ilumina e que enriquece a história: aquela "cabeça europeia" de Ronaldo não é força de expressão. No início dos anos 1980, as discussões sobre patrimônio estavam na ordem do dia na Europa — a França elegera 1980 como Ano do Patrimônio. A mobilização sanjoanense para salvar um imóvel "até então sem valor algum atribuído pela comunidade" dialogava com esse movimento mais amplo, que unia governos e cidadãos na defesa de bens culturais.
Em outras palavras: a luta pelo Theatro ajudou a mudar, na própria cidade, a ideia do que um proprietário pode fazer com seu imóvel quando a comunidade reconhece nele um valor coletivo.
1.026 assinaturas — e a oposição
A pressão tomou forma de números. Ainda em 1983, Ronaldo Marin e Zeza Freitas encabeçaram abaixo-assinados de apoio à preservação que reuniram 1.026 assinaturas — expressivo numa sociedade que, nos estertores da ditadura, ainda se reacostumava às ações populares.
Mas a preservação não foi unanimidade — e essa é uma parte da história que as versões celebratórias costumam apagar. Um cronista que assinava pelas iniciais "JPC" atacava o movimento na imprensa: dizia que não se tratava de tombar e proteger, mas de "tomar" um bem particular; lembrava as dificuldades econômicas do município e as obras "de real utilidade" que ficariam sem verba. Criou até uma frase de efeito — "é feio tomar o alheio". O debate antecipava, décadas atrás, argumentos que voltam sempre que um tombamento opõe o interesse coletivo ao direito de propriedade.

"Tombar ou tomar…" — a imprensa registrava a divisão da cidade. A preservação foi conquistada numa disputa, não num consenso.
A compra, em duas etapas
A pressão não tombou o prédio de imediato, mas empurrou o poder público à compra. O prefeito Beraldo adquiriu o edifício do Dr. Oliveira Neto de forma incomum, em duas partes: em janeiro de 1984, a metade da frente — foyer, plateia e parte dianteira do palco; o fundo do palco, os camarins e o terreno dos fundos ficaram, por ora, com o antigo proprietário.
A divisão tinha uma razão concreta: logo se percebeu que era impossível restaurar ou operar um teatro sem a caixa cênica completa. A Prefeitura voltou à mesa e concluiu a compra da segunda parte em maio de 1985. Só então o Theatro voltava a ser um conjunto coerente.

A compra do Theatro pela Prefeitura, nos anos 1980 — o passo que tornou o edifício público e viabilizou o restauro.
A cidade vota — e doa suas fotos
No mesmo mês da primeira compra, num episódio inédito de consulta popular, a Prefeitura instalou urnas no foyer para que a população opinasse sobre o destino do imóvel. Venceu a opção de restaurar o edifício como teatro, o mais próximo possível do aspecto original — escolha de 1.651 cidadãos. O jornal O Município convocava: "Compareça à urna do Teatro Municipal e dê sua opinião sobre a restauração."
Mais do que votar, a cidade foi chamada a construir o restauro. Anúncios pediam a colaboração de todos:
"Você sanjoanense, nesse momento, é peça fundamental na restauração de nosso Teatro. Se você possui fotos antigas, dê sua valiosa contribuição… fazendo reviver o Teatro Municipal com suas características originais." (O Município, 1985)
A reconstituição da materialidade perdida nas reformas dependia, portanto, dos álbuns de família — o sanjoanense virava corresponsável pela recuperação, ao lado da equipe técnica.
O tombamento
Faltava perenizar tudo isso, para que a conservação não dependesse da boa vontade de cada governo. O pedido de estudo de tombamento ao CONDEPHAAT foi feito em 8 de junho de 1983 — antes mesmo da compra — pelo deputado estadual Nelson Mancini Nicolau (o mesmo que, como prefeito, declarara o imóvel de utilidade pública em 1981). O Processo nº 23.125/1984 foi aberto em 16 de outubro de 1984 e aprovado por unanimidade em 16 de dezembro de 1985, com pareceres dos arquitetos Adauto Morais e Walter Luiz Fragoni e da historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro.
Os pareceres são reveladores: pesava não só o valor arquitetônico, mas a mobilização da cidade. A historiadora Tucci Carneiro notava que o Theatro era "um dos poucos patrimônios de valor histórico-cultural da cidade", diante de "uma grande falta de local para apresentações de arte". O arquiteto Fragoni registrava o "aspecto político da situação criada pela população, no sentido de reabertura do Teatro". A formalização estadual viria com a Resolução SC nº 03, de 19 de janeiro de 1987.

A Resolução nº 03, de 19 de janeiro de 1987, assinada pelo secretário Jorge da Cunha Lima — o documento que tornou o Theatro patrimônio protegido.
O tombamento não protegeu uma ruína morta: protegeu um bem que a cidade queria reativar — e cujo valor ela mesma havia construído, assinatura por assinatura.
Fontes e notas
- Narrativa, depoimento de Zeza Freitas, oposição de "JPC", consulta popular e tombamento: Luis Pedro Dragão Jeronimo, Participação popular e preservação do patrimônio cultural: o caso do Theatro Municipal de São João da Boa Vista (revista Vernácula, v. 1, n. 2, 2023).
- Depoimento de Zeza Freitas e chamadas de O Município (1984–1985): reproduzidos também no livro Theatro Municipal, 100 anos (Menezes, 2014, p. 117).
- Processo de tombamento: CONDEPHAAT, Processo nº 23.125/1984; Resolução SC nº 03, de 19/01/1987; pareceres de Adauto Morais, Walter Luiz Fragoni e Maria Luiza Tucci Carneiro.
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Fontes desta página
Jeronimo, "Participação popular e preservação do patrimônio cultural" (Vernácula, 2023); Menezes, "Theatro Municipal, 100 anos" (2014); Processo CONDEPHAAT 23.125/1984 / Resolução SC 03/1987.