
O Theatro visto por quem esteve lá
Memórias e curiosidades
A história oficial costuma registrar datas, leis e grandes nomes. A memória guarda outras coisas: o barulho dos pés no assoalho, o doce comprado antes da sessão, a escada para a galeria, o cheiro do foyer, o medo diante de um filme de piratas, a primeira vez no palco.
Esta página reúne episódios apoiados em documentos e lembranças pessoais. Quando uma história nasce sobretudo de memória ou crônica, um selo indica sua natureza.
Bailes transformavam a plateia
Apoiado em fotografias e relatos.
Mesas, decoração, música e dança ocupavam o lugar das cadeiras. As galerias permaneciam cheias, e a sala inteira funcionava como cenário social.
As imagens dos bailes recompensam o olhar atento: as roupas, os músicos, a decoração, as luzes, as galerias cheias — nos detalhes, contam como a cidade vivia o Theatro.
O cinema tinha seu próprio ritual
Apoiado em memória oral e crônicas.
As sessões começavam antes de a tela acender. Jovens passeavam pela praça, encontravam namorados, compravam doces e guardavam lugares. Matinês e seriados atraíam crianças; sessões noturnas reuniam famílias e casais.
A bomboniere oferecia chocolates, drops e balas que aparecem com nitidez nas lembranças. A pipoca era comprada do lado de fora. O bar, instalado na frente do edifício, prolongava a conversa antes e depois do filme.
Voz do Theatro: para uma geração, o prédio não era “um antigo teatro que virou cinema”. Era simplesmente o cinema de sua infância.
A galeria também acolhia quem não podia pagar
Apoiado em memória pessoal.
Uma crônica relata que, depois do início da sessão, o responsável pelo cinema às vezes autorizava a entrada de meninos sem dinheiro — mas apenas para a galeria, acessada pela escada lateral.
O caso diz duas coisas ao mesmo tempo: a rigidez dos setores e os pequenos gestos de bondade que nenhum livro-caixa registra.
O Theatro também foi biblioteca
Registrado em documentos e lembrado por frequentadores.
A partir da década de 1960, a Biblioteca Municipal ocupou dependências superiores. Alguns moradores lembram que entraram no edifício primeiro para ler, e só depois para assistir a espetáculos.
Ou seja: o mesmo prédio formava leitores e espectadores, muitas vezes na mesma pessoa.
Os fantasmas do Theatro
Apoiado em uma crônica literária.
Clovis Vieira imaginou antigos frequentadores e trabalhadores permanecendo no edifício como fantasmas discretos. Eles respeitariam o silêncio durante a apresentação e aplaudiriam quando a arte fosse boa.
Ninguém precisa levar a crônica a sério como caso de assombração. O que ela diz, no fundo, é uma coisa que qualquer frequentador sente: num teatro antigo, quem passou por ali nunca vai embora de todo.
Curiosidades, por tema
Episódios apoiados em documentos e lembranças, reunidos em cinco capítulos — da fundação aos mistérios da casa.
Fundação e inauguração
De como uma cidade decidiu erguer o seu monumento — e a noite em que ele abriu as portas.
Uma cápsula do tempo sob a porta
No lançamento da pedra fundamental, sob a porta principal foi enterrada uma caixa de concreto com a ata de fundação, os estatutos da Companhia Teatral Sanjoanense, jornais da época (O Estado de São Paulo, Correio Paulistano), dinheiro em mil-réis e cartões de visita.
Uma lei para ganhar um teatro
Em 15 de abril de 1912, a Câmara aprovou uma lei que concedia isenção de impostos por dez anos a quem construísse um teatro na cidade — e garantia juros sobre o capital investido. Foi o empurrão que faltava para tirar o Theatro do papel.
113 acionistas?
A tradição diz que 113 acionistas fundaram a Companhia Teatral Sanjoanense em 24 de fevereiro de 1913. A pesquisa acadêmica corrige o número: a ata registra 103 presentes ou representados (677 ações), e o Livro de Accionistas chega a cerca de 196 acionistas até 1914 — entre eles comerciantes, imigrantes, profissionais liberais e oito mulheres. Foi a própria cidade, em sua diversidade, que financiou o seu teatro.
A cidade já tinha cinemas — queria um monumento
Quando a ideia ganhou força, São João da Boa Vista já contava com os cinemas Ideal, Bijou e Guarany e com os teatros São João e Recreio, além de um salão no Centro Recreativo Sanjoanense. A elite do café queria, porém, um exemplar maior e mais bem-acabado — menos um espaço de diversão e mais um monumento à altura de uma cidade que se sonhava moderna e cosmopolita.
A chegada de gala pela Mogiana
Na inauguração de 1914, boa parte do público — famílias de fazendeiros, banqueiros e profissionais liberais, muitos imigrantes italianos — chegou da vizinhança nos vagões de primeira classe da estrada de ferro Mogiana, cujos trilhos cortavam a região desde 1886. Foi o trem do café que trouxe a plateia da primeira noite.
Duas festas na mesma noite
Enquanto a alta sociedade lotava as 480 cadeiras, as 22 frisas e os 30 camarotes para ver “Uma Causa Célebre” naquele sábado de primavera de 1914, é provável que, nos arredores da cidade, outras festas bem diferentes acontecessem — ao som de violas, tambores e berimbaus. Duas São Joãos, na mesma noite.
As mulheres que sustentaram o Theatro
Endividada com a construção, a companhia teatral logo ficou sem fôlego para trazer grandes artistas. Foram algumas mulheres da cidade que ajudaram a manter o Theatro de pé nas primeiras décadas, promovendo os eventos que o conservaram vivo — para elas, ir ao teatro era também o dia de sair de casa e afirmar o lugar da família.
Duas estreias numa só noite
A crônica de O Município de 31 de outubro de 1914 anunciou a abertura como “duas estreias a um só tempo — a estreia da Companhia dirigida pelo sr. Santos Silva e a estreia do Theatro Municipal, há muito desejada”. A Companhia de Variedades tinha chegado à cidade na quinta-feira anterior; no sábado, o Theatro abria as portas. Em cerimônia de gala, as autoridades declararam-no, sem hesitar, o maior e melhor casa de espetáculos de todo o interior paulista.
Os cinemas que arrendaram o Theatro
Antes mesmo de o Theatro abrir, as empresas dos cinemas Ideal e Bijou, então fundidas, arrendaram o novo edifício da Companhia Teatral Sanjoanense. O jornal de outubro de 1914 já anunciava que elas passariam a funcionar ali, “correspondendo às simpatias do público, quer no serviço cinematográfico, quer em outros gêneros de diversões” — o cinema, portanto, esteve no Theatro desde o primeiro dia.
O primeiro festival da casa
Já em 15 de novembro de 1914, duas semanas após a inauguração, o grupo amador “Amor à Arte” realizou o primeiro festival da Companhia Theatral Sanjoanense — o começo da tradição dos festivais locais no palco.
Grandes nomes, grandes noites
Os artistas, os pianos e as plateias que passaram pelo palco.
A “Guerra dos Sexos”
Nos anos 1920, um grupo de adolescentes encenou no Theatro a peça “Guerra aos Homens”, de Afrânio Peixoto, com tanto sucesso que o público não queria ir embora. Em resposta, os rapazes se uniram no “Grupo da Meia Noite” — assim chamado por ser o horário em que se reuniam para escrever — e a rixa teatral entre moças e rapazes durou um bom tempo.
Villa-Lobos no segundo andar
A sala da Sociedade de Cultura Artística, no segundo andar do Theatro, recebeu um recital ligado ao maestro Villa-Lobos, com o pianista Souza Lima executando a “Dança dos Negros”. Pelo mesmo palco passaram companhias líricas e orquestras vindas de São Paulo.
Um romance sanjoanense virou filme
A professora Jaçanã Altair, ligada à vida artística da cidade, escreveu o romance “João Negrinho”, transformado em filme na década de 1950. Hoje ela dá nome à Biblioteca Municipal.
Procópio Ferreira em cena
Em 1952, o Theatro recebeu o grande ator brasileiro Procópio Ferreira, com as peças “Deus lhe Pague” e “Esta Mulher é Minha”, e uma aplaudida audição do pianista Souza Lima — sinal de que a casa do interior atraía nomes de primeira grandeza.
Um piano C. Bechstein
A memória musical do edifício guarda um piano de cauda C. Bechstein, peça histórica associada à Sociedade Cultura Artística e a gerações de concertos, professores e intérpretes.
Roberto Carlos lota o Theatro
No auge da Jovem Guarda, Roberto Carlos cantou aqui com a casa lotada; havia quem tentasse arrombar as portas laterais para entrar.
A “Cidade dos Crepúsculos Maravilhosos”
No livro de ouro da Sociedade de Cultura Artística — que recolhia assinaturas de visitantes ilustres, de Guilherme de Almeida a Altino Arantes — foi o poeta Caruso Neto quem batizou São João da Boa Vista de “Cidade dos Crepúsculos Maravilhosos”, apelido que a cidade carrega até hoje.
O segundo maior do estado
A Semana Guiomar Novaes, criada em 1977 pelo prefeito Nelson Nicolau em homenagem à pianista sanjoanense, tornou-se referência nacional: é considerada o segundo maior evento cultural do estado de São Paulo, atrás apenas do Festival de Inverno de Campos do Jordão.
Um benefício para a Cruz Vermelha Italiana
Em 27 de maio de 1916, o Theatro recebeu um festival beneficente em favor da Cruz Vermelha Italiana — eco, no interior paulista, da numerosa comunidade italiana da cidade e da Primeira Guerra que então sacudia a Europa. O balancete dessa noite é hoje uma das fontes que revelam a hierarquia de preços entre camarotes, frisas, plateia e galeria.
Um coral de 120 vozes
No Festival Artístico de 11 de junho de 1947, em prol do novo prédio da Santa Casa, o canto orfeônico foi conduzido por um coral de 120 vozes, sob a regência do professor Nascipe Atalla Murr. A casa virou caixa de ressonância para a cidade inteira cantar junto.
Cornélio Pires no palco
Em 2 de maio de 1915, o poeta e folclorista Cornélio Pires deu no Theatro uma palestra sobre “usos e costumes caipiras”.
A casa de muitos usos
Rádio, rinque, redação de jornal: o edifício foi muito além do espetáculo.
Quase um cassino
Diante de dificuldades financeiras, a transformação de salões em cassino chegou a ser considerada no final dos anos 1920.
Rinque de patinação
Em 1929, a sala foi adaptada para patinação.
Uma rádio no segundo andar
A Rádio Difusora ZYJ-6 funcionou no edifício entre 1958 e 1963, com apresentações ao vivo.
75% das edições do jornal
Entre 1913 e 1925, o Theatro apareceu em 433 das 576 edições do jornal O Município — cerca de 75% —, com mais de 550 menções entre anúncios, notas e crônicas. Não era atração episódica: era parte da rotina da cidade.
Rádio e guarda em 1924
Durante a Revolução de 1924, os pavimentos superiores do Theatro abrigaram a Rádio Cultura e a Guarda Municipal Provisória — o edifício virou infraestrutura pública em tempo de crise.
O grupo “Tudo Preto”
Em 5 de fevereiro de 1929, o grupo “Tudo Preto”, ligado à Conferência de São Vicente de Paulo, montou no Theatro um “festival de caridade” — uma revista com quadros e a peça típica “Na Cosinha”. A renda ajudou a erguer a igreja de São Benedito da cidade: o palco do Theatro financiando, cena a cena, um novo templo.
Preso por chutar uma cadeira
Em 19 de novembro de 1916, Brazelino Infante acabou preso por chutar, dentro da plateia, um pedaço de madeira que se soltara de uma cadeira do Theatro.
O tempo do cinema
As décadas em que o Theatro virou cinema — e os causos da plateia.
O cão Amigo
Uma memória local registra que o cão alimentado no Bar Theatro acompanhava cortejos fúnebres até o cemitério. De tanto ganhar pedaços de Bauru de quem comia no Bar Theatro, conta-se que morreu diabético.
Só um voltou!
Flávio Nogueira teria criado esse título para divulgar um filme cujo cartaz não trazia nome em português.
Pela parede do banheiro
Para entrar no cinema sem pagar, meninos pulavam uma abertura na parede que ligava o bar ao banheiro masculino — lembrança que volta em vários depoimentos do filme.
A fileira que ninguém ocupava
Uma fileira da plateia ficava sempre vazia: do camarote, acima, alguém cuspia em quem se sentasse ali.
Um lugar só para dormir
Um senhor pagava por mês um lugar na última fila apenas para dormir — em casa, sofria de insônia.
O coqueluche da cidade
Nos anos 1950, o Bar Theatro, instalado na fachada, era coqueluche em São João da Boa Vista: a coalhada e o Bauru do bar ficaram famosos, e a calçada virava ponto de encontro entre uma sessão e outra do cinema.
O “cinema de segunda classe”
Na fase final do cinema, já deteriorado e sujo, o prédio virou alvo de chacota na cidade — “o cinema de segunda classe, que passava os filmes que não valiam nada”, lembra um depoimento. Foi o fundo do poço que antecedeu a mobilização pela salvação do Theatro.
Quando o Theatro virou “pulgueiro”
Nos anos finais do cinema, disputando público com salas mais novas como o Cine Avenida (1944) e o Cine Ouro Branco (1970), o velho CineTheatro passou a exibir filmes de menor apelo e ganhou um apelido cruel: “pulgueiro”. O mesmo prédio saudado como atestado de civilização em 1914 virou, para parte da cidade, lugar a evitar — distância que tornaria ainda mais forte a sua recuperação.
O “galinheiro”
No tempo do cinema, o último balcão — o mais barato e o mais distante da tela — era apelidado de “galinheiro”. Quem subia para lá, atrás do ingresso em conta, dizia que ia “galinhar”.
Um fliperama no foyer
Nos anos 1980, antes do restauro, o foyer do Theatro chegou a abrigar um fliperama “mal ajambrado” — ponto diário dos jovens da cidade entre uma maquininha e outra.
Ameaça, restauro e mistérios
O fechamento, a luta para salvá-lo, a obra e o que ainda não se explica.
Uma retroescavadeira na plateia
A máquina entrou no edifício durante o rebaixamento do subsolo e das fundações.
Um show no canteiro de obras
Em 1995, Relembranças lotou a sala ainda inacabada, com cadeiras emprestadas.
Um retrato escondido sob a tinta
Sobre a boca de cena, camadas de tinta escondiam o retrato de Carlos Gomes. Durante o restauro, uma prospecção delicada revelou o medalhão — remoção controlada das camadas, reintegração das lacunas e proteção final devolveram a figura ao palco.
Seis teatros como este
Segundo depoimentos no filme, restam no Brasil poucos teatros desse porte e período — alguns deles no estado de São Paulo. Cidades vizinhas, como Campinas e Amparo, demoliram os seus.
Quem chama no teatro vazio
Funcionários relatam ouvir o próprio nome ser chamado no teatro vazio, sem ninguém por perto — parte das “energias” que a casa centenária acumulou.
A greve de fome no telhado
No início dos anos 1980, com o Theatro fechado e ameaçado de demolição, o ator Ronaldo Marin — recém-chegado da Europa com Shakespeare e Camus na bagagem — declarou ao jornal da cidade que se amarraria no topo do prédio e faria greve de fome até que decidissem não o demolir e pedir seu tombamento. O gesto atraiu a imprensa e ajudou a virar a maré a favor da preservação.
O acampamento que quase deu fogo
Em 1998, durante uma competição universitária na cidade, estudantes de fora seriam alojados dentro do Theatro — já sem estrutura — e chegaram a acender fogo no interior. Os grupos de teatro se mobilizaram, recorreram ao Ministério Público e, com um abaixo-assinado de mais de duas mil assinaturas, conseguiram que os visitantes fossem acomodados em outro lugar.
Vinte dias sem parar
Depois de visitarem teatros do Rio de Janeiro para estudar palcos modernos, os técnicos do restauro entenderam que precisavam ampliar o imóvel. Todos os desenhistas dos escritórios de engenharia e arquitetura da cidade foram cedidos e, em vinte dias de trabalho ininterrupto — sábados e domingos incluídos —, deram entrada no CONDEPHAAT com o pedido de verba.
Mais de cem mil numa década
Um levantamento acadêmico dos borderôs da AMITE revelou números que a própria entidade não conhecia: entre 2004 e 2014, o Theatro restaurado recebeu mais de 111 mil espectadores pagantes em cerca de 568 espetáculos de música, teatro e dança — a prova, em estatística, de que a casa voltou a ser de toda a cidade.
“A Ferrovia Norte-Sul de São João”
A restauração se arrastou por quase dezessete anos, atravessando crises e mandatos. Diante da lentidão e dos custos, parte da cidade passou a chamar a obra, com ironia, de “a Ferrovia Norte-Sul de São João” — comparando-a à célebre ferrovia federal que vivia anunciada e nunca ficava pronta. O apelido virou termômetro da impaciência popular com o canteiro que não acabava.
Doze bandeiras para um tombamento
Quando o Theatro foi tombado, em 1987, era costume hastear uma bandeira do Brasil em cada janela do imóvel protegido. Faltavam as bandeiras — e a equipe juntou as doze necessárias pedindo emprestado às escolas da cidade.
A fantasma que vendia balas
A “fantasma-chefe” do Theatro tinha nome: Ida Vita, que em vida vendia as balas Chita na entrada do cinema. Conta a crônica que a luz forte dos projetores “dissolvia” os fantasmas da casa.
Continue explorando
Ajude a completar esta história
Reconheceu alguém? Lembra de uma sessão, um baile, uma data?
Esta memória é da cidade. Se uma foto trouxe um rosto, um nome ou uma história, deixe a sua lembrança no Livro de Memórias — cada relato ajuda a identificar imagens e a guardar o Theatro para quem vem depois.
Deixar uma lembrança