
A cidade escreve sua própria história
Livro de Memórias
O Theatro é feito também de lembranças. A primeira sessão de cinema, um baile de Carnaval, uma estreia, um nome no palco, a emoção de entrar pela primeira vez. Se você viveu o Theatro — ou ouviu histórias de quem viveu —, deixe aqui o seu registro. Aos poucos, estas páginas se tornam a memória viva da cidade.
As primeiras páginas
Memórias colhidas no documentário
Em 2015, o documentário Música & Drama registrou dezenas de sanjoanenses contando o Theatro que viveram. Estas cinco lembranças abrem o livro. Toque no minuto para ouvir cada uma na voz de quem contou.
O terninho azul-marinho
Eu lembro do meu pai, uma noite, chegar em casa e me dar um pedacinho de papel, e falar que tinha comprado um ingresso para eu ir ao teatro. E eu fiquei meio assim, né: vou ao teatro, que é isso, como é que é, como é que não é? Aí ele me ensinou como é que tinha que fazer: tinha que entrar, ficar quietinho, sentar, não podia falar alto, não podia conversar com ninguém. E eu vim pro Theatro, coloquei meu terninho azul-marinho, entrei no teatro, sentei, e do meu lado ficou um lugar vago. E começou a chegar gente, e todo mundo sentando, sentando, sentando, e as luzes foram se apagando. E de repente, do meu lado tinha uma cadeira vazia e uma luz se acendeu em cima da cadeira, e entrou um senhor e sentou nessa cadeira — e era um senhor que estava muito mal vestido, ele parecia mesmo um mendigo. E eu, na minha ingenuidade de criança, fiquei pensando: mas meu Deus do céu, né, meu pai falou tanto daqui, que tinha que pôr o terno para ir lá, agora chega um senhor aqui, entra nesse estado. De repente o velho levantou e veio andando pelo corredor — eu tava na terceira ou quarta fileira — e veio andando, subiu no palco, e aí as luzes foram se acendendo e começou o espetáculo: era As Mãos de Eurídice, com Rodolfo Mayer. Então eu acho que isso foi um acontecimento na minha vida, porque aí descobri que quando a cortina abre você entra num mundo de fantasia, você viaja pelo tempo. Essa foi a minha primeira experiência em teatro.
Do documentárioOuvir em Música & Drama (0:34) →
A parede do banheiro
A gente não ia ao cinema de bermuda, de short, porque nem existia essa palavra bermuda — nós não conhecíamos: a gente colocava uma roupa mais bem aprumada. A gente entrava pelo bar, e onde fazia o sanduíche ele tinha uma parede que tinha uma abertura em cima, e essa abertura dava dentro do banheiro masculino — e a gente pulava a parede, entrava no cinema sem pagar. Emoção conjunta, isso é muito importante: a televisão exclui as outras pessoas, fica a família, alguns amigos, e é isso, coisa fechada. Quando você tá no auditório, a emoção contagia. E era muito interessante porque a gente batia, fazia muito som, a gente batia com o pé, molecada, para fazer barulho. E a gente vinha também trocar gibi, me lembro: Gordo e o Magro, Charles Chaplin. O que me impressionava era a cortina que subia — ela ia enrugando, enrugando, e subia e mostrava a tela.
Do documentárioOuvir em Música & Drama (4:57) →
O domingo antes da matinê
O teatro aqui era super legal porque ele também era um grande ponto de encontro. Chegava o domingo, antes da matinê, antes de qualquer coisa todo mundo se reunia no saguão do teatro, dentro do bar, que era o bar do seu Arnaldo, o Arnaldo Posse — a gente era muito amigo do Renê, que era filho dele. E a gente ficava sentado olhando as meninas chegarem, para ver quem vem, quem não vem, aonde vai, onde deixa de ir. Todo mundo gostava de sentar lá para paquerar as meninas, bater papo, comentar sobre o filme, que geralmente era em duas sessões. Então quem saía do filme sentava ali para tomar um lanche, e os que estavam esperando terminar a primeira sessão ficavam tomando um sorvete para depois entrar. Você comprava um ingresso do cinema da matinê e tinha que dar o dinheiro para você comer um sanduíche depois e tomar uma caçulinha do Galvani, porque era a famosa caçulinha, que era uma bebida nossa — e a gente era sanjoanense até debaixo d'água, a gente queria o que era nosso.
Do documentárioOuvir em Música & Drama (27:02) →
A coalhada do Bar Theatro
Falar do Bar Theatro é uma coisa prazerosa para mim, porque o Bar Theatro na década de 50 era coqueluche em São João da Boa Vista. O bar aqui tinha uma coalhada fantástica, e Bauru também era muito bom. Eu era criança e vinha com a minha irmã, meu pai, minha mãe, e era tradicional passar pelo bar. Meu pai tinha táxi aí na frente, uma perua de táxi aí na frente, no fundo da igreja — então ele era amigo das pessoas do bar, e todo mundo, a gente se conhecia lá. E a gente vinha para comer a tal da coalhada e algum petisco, possivelmente o tal do Bauru, que era muito apreciado na época. E não era só a molecada, eram adultos também, que ficavam tomando alguma coisa, bebendo alguma coisa. Eram músicos: o Pio, o Nenê, e o seu Nascipe, ele tocava também — e às vezes eles tocavam naquele saguão e nesse calçadão.
Do documentárioOuvir em Música & Drama (28:32) →
A noite em que Roberto Carlos atrasou
A lembrança mais antiga que eu tenho do teatro é de um show do Roberto Carlos, era uma época que estava estourando a Jovem Guarda. Aí ele atrasou pra chegar, porque claro, veio de carro de São Paulo, uma situação de estradas totalmente diferente do que é hoje — mas o teatro estava lotado, lotado, lotado. Ninguém arredou o pé enquanto ele não chegou. A coisa foi tão brutal que tinha gente tentando arrombar as portas laterais. Naquela época eu me lembro que houve uma falha de som numa das músicas; não teve nenhum problema, ele voltou, cantou de novo, e era uma agitação total. Você imagina: no auge da Jovem Guarda, São João recebeu Roberto Carlos cantando “eu quero que vá tudo pro inferno” — era o delírio do teatro.
Do documentárioOuvir em Música & Drama (34:06) →
Transcrito do documentário Música & Drama (2015), com pontuação acrescentada para leitura. As falas não foram alteradas.
Memórias do público
Escreva a sua memória
Conte uma lembrança ligada ao Theatro: o que aconteceu, quando, com quem. Toda memória é bem-vinda.
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