
Episódio · Um retrato sob camadas de tinta
Sobre a boca de cena, o rosto de um compositor observa a plateia há mais de um século. Mas ele já esteve desaparecido — escondido sob camadas de tinta, a ponto de ninguém saber se ainda existia — e só voltou graças a uma fotografia tirada por acaso, num comício, e ao trabalho quase arqueológico de um restaurador. Esta é a história do retrato mais simbólico do Theatro.
Em um minuto: o medalhão de Carlos Gomes é obra original do pintor acadêmico Ettore Adriano Fabri, executada em 1914 no alto do proscênio. Reformas o cobriram com sucessivas pinturas. Uma foto de um comício de 1919, que registrara seus arabescos, serviu de referência; e o restaurador Cézar Roberto Olandim, "como um arqueólogo", o reencontrou sob a tinta e o devolveu à boca de cena.
Um retrato no lugar de honra
Carlos Gomes, o campineiro de O Guarani, era o nome brasileiro do Theatro. Enquanto Verdi, Wagner e Gounod apareciam em medalhões na fachada, a Carlos Gomes coube o ponto mais nobre do interior: o alto da boca de cena, sobre o palco, de frente para todos. Pôr um brasileiro ali, no eixo do olhar de toda a plateia, era uma declaração — o país no centro da casa, e não apenas a Europa.
A mão de Ettore Adriano Fabri
A pintura tem autoria documentada. Segundo o relato de época reunido por Rodrigo Rossi Falconi, coube ao "ilustre e conceituado pintor acadêmico Professor Ettore Adriano Fabri" executar "a pintura do retrato do maestro brasileiro Carlos Gomes na parte superior do proscênio", enquanto a pintura e a decoração internas ficavam a cargo do hábil artista Antenor de Almeida. O medalhão integra, assim, a rede de artífices que deram corpo ao edifício em 1914 — não é um adereço genérico, mas obra assinada.
Sumiço sob as camadas
Com o tempo, o Theatro mudou. Virou cinema, passou por reformas, recebeu novas pinturas. O medalhão foi desaparecendo sob as camadas, até quase ninguém lembrar que estava ali. Quando o restauro começou, a dúvida era concreta — e angustiante: ainda existiria, sob a tinta, a efígie do maestro? Ou ela teria se perdido para sempre?
Os anos de cinema haviam sido duros com o retrato. Quando a tela foi montada na boca de cena, pintaram de branco tudo em volta, deixando o medalhão como uma ilha desajeitada — e, na decadência, ele chegou a virar brincadeira: no documentário, recorda-se que crianças atiravam restos de tijolo tentando "acertar o olho do Carlos Gomes", de tão exposto que o rosto ficara.

Decapagem: a remoção controlada, camada a camada, da tinta que encobria o retrato.
A foto de 1919 que guardou o rosto
A pista decisiva veio de onde menos se esperava. Em 9 de dezembro de 1919, um comício do Partido Republicano Paulista, em apoio à candidatura de Rui Barbosa à presidência, reuniu a sociedade sanjoanense na sala do Theatro — e uma fotografia daquele dia registrou, ao fundo, os arabescos do medalhão de Carlos Gomes. Décadas depois, essa imagem virou documento técnico: foi ela que mostrou aos restauradores como eram os ornamentos originais, servindo de referência para o restauro.
É um caso exemplar de como a memória da cidade — uma foto guardada num álbum — pode ser decisiva para recuperar o patrimônio. Sem aquele registro casual de um comício, o reencontro teria sido muito mais incerto.
A restauração, como arqueologia
Quem conduziu o resgate foi o artista Cézar Roberto Olandim, com Maércio Mazzi e Elias Gervasi. O relato é dele próprio, e vale ouvir:
"Quando vi o imponente Theatro, foi amor à primeira vista! (…) A grande dúvida era se, abaixo das várias camadas de pintura, ainda existiria a efígie do Maestro. Às vezes, o trabalho de restauração é análogo ao de um arqueólogo."
A prospecção foi feita com um bisturi, numa decapagem transversal sobre o ponto em que deveria estar a pintura. "A cada milímetro decapado pela delicada lâmina, novas características do belo e imponente retrato eram reveladas." Ao cabo de dez dias, a pintura estava inteiramente descoberta. Seguiram-se as etapas de restauro: o preenchimento das lacunas abertas pelo tempo, a reintegração da pintura nas áreas perdidas e a criação de uma película protetora. Na reinauguração, conta Olandim, todos os envolvidos "se emocionaram, deslumbrados com o espaço maravilhoso resgatado".
O documentário guarda os bastidores do resgate. Olandim era uma das pouquíssimas pessoas no Brasil capazes desse tipo de trabalho, e a Fundação, sem caixa, não conseguia cobrir o seu preço. Foi por intermédio do Tenente Fernandes — seu irmão na mesma loja maçônica — que o restaurador topou; dali em diante, nunca mais falou em orçamento ("quanto a Fundação tem? Tanto. Então, semana que vem, estarei lá"). E, enquanto a efígie ressurgia milímetro a milímetro, o andaime tornou-se o ponto mais visitado da obra: todos queriam subir para ver o rosto emergir da tinta.
O percurso do medalhão resume o do próprio Theatro: algo valioso, encoberto e quase perdido, devolvido à vista pela combinação de pesquisa, técnica e memória. Hoje, Carlos Gomes volta a olhar a plateia — como em 1914.

Cézar Roberto Olandim recupera, sobre o andaime, a pintura do medalhão.

O medalhão restaurado — o retrato de volta ao lugar de honra, mais de um século depois.
Fontes e notas
- Autoria de Ettore Adriano Fabri e contexto de 1914: Rodrigo Rossi Falconi, Theatro Municipal de São João da Boa Vista (Revista da ASBRAP, nº 18).
- A foto do comício de 1919 como referência e o relato de Cézar Roberto Olandim: livro Theatro Municipal, 100 anos (Menezes, 2014).
- Ornamentos da fachada (1992): Romeu Pradela Buzon Filho, o “Grilo” — ver o episódio O restauro.
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Fontes desta página
Falconi (Revista da ASBRAP nº 18); livro "Theatro Municipal, 100 anos" (Menezes, 2014); relato de Cézar Roberto Olandim.