
Episódio · Da rua ao caixa (1995–2002)
Nos anos 1980, a cidade salvou o Theatro da demolição com abaixo-assinados e ameaça de greve de fome. Mas salvar não bastava: alguém tinha de pagar a obra. A segunda mobilização — menos lembrada e igualmente decisiva — foi a do dinheiro, e durou pelos anos 1990 afora, com a Lei Rouanet, estudantes nas ruas e artistas tocando no meio do canteiro.
Em um minuto: comprado e tombado, o Theatro seguia em ruínas — no lugar das poltronas, "bocas de lobo"; nos fundos, uma fábrica de vassouras. Em 1998 nasceu a Fundação Oliveira Neto, para captar recursos via Lei Rouanet e complementar as verbas públicas. Campanhas como "Vestindo a Camisa" e "Dê para São João parte do Leão" mobilizaram estudantes e moradores, e a arte continuou acontecendo no prédio em obras — até a reabertura, em 2002.
Da rua ao caixa
A luta dos anos 1980 fora de protesto; a dos anos 1990 foi de gestão e captação. E o quadro era desanimador. Quem entrou na obra descreveu o estado do prédio: os mezaninos não existiam mais; onde deveriam estar as poltronas, havia "bocas de lobo"; nos fundos, fora instalada uma fábrica de vassouras de bambu; na lateral, guardavam-se carrinhos de pipoca; a pintura havia desaparecido. Só as obras estruturais estavam prontas. Restaurar tudo aquilo exigiria muito dinheiro — mais do que o orçamento público dava, sobretudo com a inflação corroendo as verbas.
A Fundação Oliveira Neto
Em 1998 criou-se a Fundação Oliveira Neto (FON), com objetivo, nas palavras da conselheira Beatriz Castilho Pinto, "exclusivo de arrecadar recursos para as obras de restauração, complementando as verbas públicas". O nome era uma homenagem ao antigo proprietário, o Dr. Joaquim José de Oliveira Neto — médico e intelectual que, tendo comprado o Theatro nos anos 1930, "sem ceder às pressões do mercado, facilitara a negociação com a Prefeitura".

A Fundação Oliveira Neto (FON), criada em 1998 para captar recursos e complementar as verbas públicas — registro de imprensa.
Cerca de 60 pessoas ligadas às artes e à cultura foram convidadas a integrar a entidade, sob a diretoria de José Rubens Blasi Carvalho Rosas (1998–2000). A diretoria executiva — com José Márcio Carioca e Vera Adib, e o apoio de João Batista Ciaco nas primeiras lições sobre a recém-criada Lei Rouanet — punha a mão na massa. Às terças-feiras, reuniam-se no Clube Palmeiras para estudar orçamentos e decidir sobre o ar-condicionado e o madeiramento das janelas. Era captação de recursos, mas também gestão fina de uma obra complexa.

A equipe da FON e da Prefeitura reunida em torno do restauro — Jorge Cunha Lima, Oliveira Neto e Sidney Beraldo entre eles.

A posse da Fundação Oliveira Neto, em 1998 — a entidade criada para captar recursos e concluir o restauro.
Voz do filme · “O Tribunal de Contas me chamou e disse que eu estava sonegando o meu salário, o do José Rubens e o da Vera Adib — três anos de trabalho. Eu respondi: meu amigo, nós nunca cobramos nada; trabalhamos aqui há três anos, somos voluntários.” — ouvir no documentário (1:03:23) →
Recursos das três esferas
A FON conseguiu recursos das três esferas de governo — e, para isso, pesou a política: o ex-prefeito Sidney Beraldo, eleito deputado, alinhava-se a prefeito, governador e presidente do mesmo partido, o que ajudou a destravar verbas. Campanhas davam visibilidade à causa, como a "Dê para São João parte do Leão", que estimulava pessoas e empresas a destinar parte do imposto de renda ao restauro pela Lei de Incentivo à Cultura.

A imprensa acompanhava a captação — verba pública e incentivo fiscal somados, ano após ano.
Vestindo a Camisa
A mobilização não ficou só nos gabinetes. No movimento "Vestindo a Camisa", os estudantes sanjoanenses, incentivados por seus professores, fizeram — nas palavras de Beatriz Castilho Pinto — "um belíssimo trabalho voluntário em prol da restauração". O valor arrecadado talvez fosse pequeno diante do custo total, mas o simbólico foi enorme: jovens que talvez nunca tivessem visto o Theatro funcionando passaram a se sentir donos da causa. Quem contribui, mesmo pouco, passa a sentir que o prédio também é seu.
Arte no canteiro de obras
O mais bonito é que, mesmo em ruínas, o Theatro nunca parou de produzir cultura — e foi a própria arte que ajudou a financiá-lo. Já em 1984 acontecia ali a Semana do Artista Sanjoanense; em 1985, a Escola de Música da Prefeitura passou a funcionar no prédio "em meio a ácaros, cupins e morcegos", e o Coral Vozes de São João, sob o maestro Wildes Bruscato, ensaiava semanalmente. Em 1995, o show Relembranças, de Silvia Ferrante e Luis Carlos Pistelli, ocupou o palco ainda deteriorado. A EPTV levou ao prédio inacabado o Quarteto Davi, que tocou para um auditório lotado, com cadeiras sobre a base de cimento. A própria Badi Assad fez ali um de seus primeiros shows solo.

A I Bienal de Artes Visuais, 1998, montada na plateia ainda em obras — arte no canteiro.
Antes mesmo de estar pronto, o Theatro já era palco de sua própria salvação — a cultura acontecendo no canteiro para garantir que a cultura voltasse a acontecer. Quando a sala principal reabriu, em setembro de 2002, na 25ª Semana Guiomar Novaes, o resultado não era só de governos: era de uma cidade que, duas vezes, decidiu não perder seu Theatro — primeiro com a voz, depois com o bolso.
Fontes e notas
- Estado do prédio, FON, diretoria executiva, Lei Rouanet e Quarteto Davi: depoimentos reunidos no livro Theatro Municipal, 100 anos (Menezes, 2014).
- Objetivo e composição da FON, e o Vestindo a Camisa: relato da conselheira Beatriz Castilho Pinto, no mesmo livro.
- "Dê para São João parte do Leão" e datas da captação: livro do centenário e revista Vernácula (2023).
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Fontes desta página
livro "Theatro Municipal, 100 anos" (Menezes, 2014), depoimentos de Beatriz Castilho Pinto e da diretoria da FON; artigo da revista Vernácula (2023).