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Theatro MunicipalSão João da Boa Vista
A lei municipal de 1912 que concedia incentivos a quem construísse um teatro em São João da Boa Vista.

Episódio · A Companhia Teatral Sanjoanense (1911–1915)

11 min de leitura

Todo prédio bonito esconde uma planilha. Antes da fachada eclética e dos medalhões dos compositores, o Theatro foi uma decisão econômica difícil: como reunir, numa cidade do interior paulista, o dinheiro para erguer uma casa de espetáculos do tamanho da ambição local. A resposta envolveu a Câmara, uma sociedade por ações, quase duzentos investidores, empréstimos, debêntures e anos de dívida. Este episódio reconstitui essa engenharia — e mostra que ela é mais plural, e mais interessante, do que o mito de origem costuma contar.

Em um minuto: o Theatro nasceu de um arranjo público-privado. A Câmara ofereceu garantia de juros a quem o construísse; em 1913 formou-se a Companhia Teatral Sanjoanense, sociedade por ações com capital de 100 contos de réis e fins que já incluíam o cinema. A ata de constituição registra pouco mais de cem sócios, mas a pesquisa nos livros da empresa revela quase duzentos acionistas — fazendeiros, comerciantes, imigrantes e oito mulheres. Mesmo assim, o dinheiro não bastou: vieram empréstimos e debêntures, e a obra terminou custando perto de 290 contos.

A cidade que queria um teatro

No começo do século XX, São João da Boa Vista já tinha cinemas, salões e grupos dramáticos — mas queria mais. Queria um símbolo. O Theatro entrou na agenda municipal não como capricho isolado, e sim como peça de um plano de melhoramentos urbanos: em 1911, a Câmara autorizou um empréstimo de mil contos de réis para quitar dívidas e financiar obras — abertura de ruas, praças, mercado e, no mesmo pacote, um teatro municipal.

Ter um teatro era, naquele momento, um atestado de civilização. A cidade do café, da ferrovia e da imprensa queria se ver à altura dos grandes centros — e estava disposta a usar o cofre público para viabilizar o empreendimento privado que a colocaria nesse mapa.

A engenharia pública: a lei de 1912

O mecanismo decisivo veio em 20 de setembro de 1912, por lei municipal. A Câmara concedeu favores e garantia de juros a José Evangelista de Almeida — ou à empresa que organizasse a construção de um teatro ou politeama. A garantia foi de 8% ao ano (reduzida de uma proposta anterior de 9%), por dez anos, sobre o capital aplicado. Ao incorporador coube ainda o direito a um percentual sobre a exploração do negócio nos primeiros anos.

É um detalhe que muda a leitura da obra: o Theatro não foi só iniciativa privada nem só obra pública — foi um cruzamento dos dois. O capital seria de acionistas, em busca de renda; mas a Câmara criou as condições para que o investimento parecesse seguro e desejável. Sem essa engenharia, a sociedade por ações dificilmente teria saído do papel.

A lei municipal de 1912 que concedia incentivos a quem construísse um teatro.

A lei municipal de 20 de setembro de 1912 — a garantia de juros que tornou o empreendimento viável.

Uma sociedade por ações

Em março de 1913, uma assembleia geral no salão nobre do Centro Recreativo Sanjoanense deu forma à Companhia Teatral Sanjoanense (grafada Theatral à época), constituída formalmente em 24 de fevereiro de 1913. Os estatutos previam capital social de 100 contos de réis, divididos em mil ações de 100 mil réis, sede na cidade e duração de vinte anos a contar de 1º de janeiro de 1913.

Os fins eram explícitos — e reveladores. A Companhia se propunha a construir um teatro moderno, explorar diversões, inclusive o cinematógrafo, e facilitar a vinda de companhias. O cinema, portanto, não foi uma traição posterior ao ideal teatral: estava nos objetivos desde a origem. A casa se chamaria Theatro, mas já nascia pensada como um espaço flexível — um politeama.

A assembleia de constituição terminou ao som da Banda Internacional, regida pelo maestro Joaquim Azevedo. Música e administração já dividiam a mesma noite.

113, 103 ou 196?

O número consagrado — 113 acionistas — é repetido pela tradição local e pela fonte oficial. A pesquisa, porém, pede cuidado. A ata de constituição de 24 de fevereiro de 1913 registra 103 sócios presentes ou representados (78 presentes e 25 por procuração) e 677 ações naquele ato. O 113 corresponde, provavelmente, a uma contagem de presentes em assembleia, não ao quadro completo.

E o quadro completo era maior. A leitura do Livro de Accionistas feita por Luis Pedro Dragão Jeronimo identifica 191 acionistas e 993 ações até novembro de 1914 — chegando a 196 quando incluídos os desistentes. A diferença não é um detalhe contábil: ela muda a leitura social da obra. O Theatro não foi empreendimento de um punhado de coronéis, mas de uma rede ampla.

Item Registro documental
Capital social 100 contos de réis (1.000 ações de 100 mil réis)
Presentes à constituição (24/2/1913) 103 sócios · 677 ações
Quadro até nov./1914 (Livro de Accionistas) 191 acionistas · 993 ações (196 com desistentes)
Garantia pública (lei de 1912) 8% a.a., por 10 anos
Empréstimo interno dezembro de 1913
Debêntures 1915 · 100 contos · 6% a.a. · 10 anos
Investimento total estimado ~290 contos de réis

Quem entrou com o dinheiro

Quem eram esses quase duzentos nomes? O levantamento de Jeronimo desfaz o atalho de que "a elite cafeeira construiu um teatro". Os fazendeiros concentravam as maiores quantias, mas não esgotavam a Companhia:

  • os grupos não diretamente ligados à lavoura — comerciantes, industriais, profissionais liberais, funcionários públicos — somavam 115 acionistas e 317 ações: cerca de 60% dos acionistas e 32% das ações;
  • imigrantes e descendentes — italianos, espanhóis, alemães e outros — eram 72 nomes (37,6%), com 205 ações (20,6%), ligados ao comércio, aos clubes e à vida urbana;
  • havia oito mulheres entre os acionistas — presença feminina rara num mundo público quase todo masculino, e sinal de que havia mulheres com patrimônio próprio.

Havia, ao mesmo tempo, forte concentração de capital: apenas 27 acionistas, com investimento superior a um conto de réis, detinham cerca de 596 ações — perto de 60% do total levantado. A base era plural; o peso financeiro, não. O Theatro expressa, na própria estrutura societária, a São João daquele tempo: uma cidade que se ampliava sem deixar de ser desigual.

Acionistas da Companhia Teatral Sanjoanense — a rede de cidadãos que financiou a obra.

Acionistas da Companhia Teatral Sanjoanense — a rede de mais de cem cidadãos que financiou a obra.

A diretoria: poucos no comando

Se o quadro de acionistas era diverso, a direção era oligárquica. A primeira diretoria, proposta pelo Dr. Theophilo Ribeiro de Andrade, reunia nomes de grande poder local:

  • Presidente: coronel Joaquim Cândido de Oliveira
  • Vice-presidente: coronel João Osório de Oliveira
  • Secretário: capitão Manoel Raimundo Dutra
  • Diretor-gerente: major José Evangelista de Almeida (apontado pelos jornais como o iniciador das obras) — substituído, já com a obra na reta final, pelo capitão Adolpho Augusto de Azevedo, eleito em assembleia de 23 de agosto de 1914, quando Evangelista se mudou para Santos
  • Diretor-técnico: Gabriel Emílio Pacheco de Melo
  • Vogais: coronel Gabriel José Ferreira e major Joaquim Tereziano Valim
  • Conselho Fiscal: José Procópio de Azevedo Neto, José Joaquim da Silva Costa e Antônio Luiz Delgado

Muitos tinham trajetória pública, cargos eletivos e participação em outros melhoramentos urbanos. A obra precisava disso: um empreendimento de grande porte, com risco real, só se sustentaria se inspirasse confiança. A pluralidade dos acionistas não significava democracia — quem decidia era um grupo pequeno e poderoso.

Dívida, debêntures e arrendamento

O mais revelador é que o dinheiro não bastou. Já em dezembro de 1913, antes mesmo da inauguração, os acionistas aprovaram um empréstimo interno para concluir as obras. Em 1915, com a casa funcionando, a Companhia ainda recorreu a debêntures — 100 contos de réis, por dez anos, a 6% ao ano. Somando capital, chamadas e dívida, a pesquisa estima que o investimento possa ter chegado a cerca de 290 contos de réis — cifra comparável ao preço de uma fazenda.

Uma casa endividada precisa de receita. Por isso o arrendamento foi central desde cedo: empresas arrendatárias assumiam a exploração da sala e dos bares, exibiam filmes e contratavam companhias em busca de lucro. Isso ajuda a entender por que o cinema e a programação popular aparecem tão cedo na vida do Theatro: a casa precisava dar retorno. A beleza arquitetônica convivia, desde o primeiro dia, com o cálculo de bilheteria.

A escritura do Theatro Municipal, em registro de imprensa.

A escritura do Theatro Municipal, em registro de imprensa — o patrimônio que tantas mãos pagaram.

Para além do mito dos "jovens da Europa"

Uma versão difundida diz que jovens sanjoanenses voltaram da Europa com a ideia de construir um teatro. A imagem é elegante, mas insuficiente: a documentação mostra Câmara, leis de garantia de juros, estatutos, capital, empréstimos, debêntures e expectativa de lucro. O Theatro não nasceu de um sonho isolado, e sim de uma soma de interesses — status para a cidade, rendimento para os acionistas, melhoramento para o poder público, diversão para o público, progresso para os jornais. Décadas depois, sem atividade e endividada, a própria Companhia chegaria ao fim: entre 1977 e 1978, a Justiça conduziu sua liquidação, e as ações, de acionistas em sua maioria já falecidos, foram partilhadas.

A cidade, nome a nome

O livro do centenário preserva a relação dos acionistas da Companhia — os 163 nomes que, ação a ação, pagaram pela casa. Estão aqui fazendeiros e comerciantes, imigrantes e firmas, ao lado de algumas mulheres proprietárias. É a fotografia de uma cidade inteira apostando em um teatro.

Affonso Osório de Oliveira
Albertino Rocha
Alfredo Emílio Pacheco de Mello
Alipio Noronha
Alvim Reis Vallim
Amadeu Budri
Américo de Oliveira Costa
Ângelo Mancini
Ângelo Pires Cardoso
Anna Gabriela da Silva Oliveira
Antenor Gonçalves Vallim
Antônio Balestrim
Antônio Cândido de Oliveira Filho
Antônio de Oliveira Fontão
Antônio Furlanetto
Antônio Galves
Antônio Hermano de Costa Bueno
Antônio Luiz de Castro Delgado
Antônio Malheiros
Antônio Martinio & Filho
Antonio Pereira de Mello
Antônio Rizzo
Antônio Silverio dos Santos
Antônio Villela de Carvalho
Aquino Sottano
Arthur Cobra de Almeida
Arthur de Oliveira Andrade
Arthur Gennari
Aurélio de Faria Lobato
Avelino Eugênio Barbosa
Bartolo Sinigaglia
Basilidio José Teixeira
Benedicto Siqueira Cardoso
Braz Antonio Dattoli
Braz Filizzola
Carlos de Felicio
Carlos Kiellander
Carlos Luhmann
Carlos Rehder
Conrado Ferreira
Cosimo Nago
Cristiano Rehder
Daniel Rickheim
Domingos Procópio de Azevedo
Domingos Rizzo
Domingos Theodoro Azevedo Sob.
Doyola & Irmãos
Durval Reis Vallim
Edgard de Oliveira Westin
Elias de Oliveira
Elisa Rehder
Ermelindo Arrigucci
Ernesto de Oliveira
Esperidião Cruz
Estevão Telles Guimarães
F. Vita & Cia.
Fernando Blasi
Fernando Lotuffo
Francisco Bruno
Francisco de Paula Borges
Francisco Hugo Springer
Francisco Mangues
Francisco Palma
Francisco Paschoal
Francisco Santa Maria
Francisco Tragnoni
Francisco Vitta Miguel
A. Freres
Gabriel de Azevedo Junqueira
Gabriel Garcia da Costa
Gabriel Joaquim Ferreira Júnior
Gabriel José Ferreira
Gabriel Roberto de Andrade
Germano Gelson
Honorio Cypriano Loyola
Hortência Horta Perreira
Ignacia de Azevedo Junqueira
Irineu Macedo
Irmãos Budri
Irmãos Filardi & Blasi
Izidoro Gute
J.D. Martins
JM. José de Oliveira Sobrinho
João Baptista da Boa Vista
João Batista Acceturi
João Batista Lotto
João Cândido Brandão
João Jacyntho Pereira Júnior
João Joaquim Braga
João José Miranda
João Osório de Andrade Oliveira
João Pinto Fontão
João Saccoman
João Sartorello
João Vicente de Souza
Joaquim Bandeira da Costa
Joaquim Cândido de Oliveira
Joaquim G. de Barros Braga
Joaquim José de Andrade
Joaquim Laurentino da Silva
Joaquim Lourenço O. Andrade
Joaquim Osório de Azevedo
Joaquim Theresiano Vallim
José Alexandre de Almeida
José Alves Pedrosa Sobrinho
José Antônio da Silva
José Benito Esteves
José de Andrade
José Dias Paschoal
José Evangelista de Almeida
José Gomes Guimarães
José Joaquim da Silva Costa
José Joaquim Pereira da Silva
José Marçal Nogueira de Barros
José Maria Simões
José Oliveira Costa
José Osório Vallim
José P. de Andrade Jr.
José Pinto Fontão
José Pinto Noronha
José Pires de Aguiar
José Procópio de Andrade
José Procópio de Azevedo Neto
José Rabelo de Oliveira
José Silvério de Lima
José Theodoro de Faria
José Vieira Quaresma
Lauro Maciel de Godoy
Leôncio de Oliveira
Lourenço Alvarez
Luís Rodrigues Teixeira
Luiz Prezzia
Manoel da Costa Patrão
Manoel dos Santos Cabral
Manoel dos Santos Cecílio
Manoel Luiz Osório de Oliveira
Manoel Marques Júnior
Manoel Palma & Filho
Manoel Raymundo Dutra Júnior
Manoel Villela C. Junqueira
Marcos Olympio de Andrade
Napoleão de Castro
Norberto Ferreira
Oscar de Andrade Nogueira
Oscar Ferreira Varzim
Padre Manoel José Marques
Paschoal Ricardo
Paschoal Veraldi
Paulo Previeiro
Peres & Irmãos
Pompeo Policari
Procópio Amaral Pinto
Raphael Gugliotti
Raul da Costa Oliveira
Salomão Elias & Irmão
Theophilo Eugênio Barbosa
Theophilo Ribeiro de Andrade
Tiburcio Guedes de Sene
Tita Oliveira
A. Vespasiano de Albuquerque
Vicente Bise
Victor Buccini
Victor Manoel de Andrade Dias

Nota: a lista reproduz os nomes tal como registrados no livro Theatro Municipal, 100 anos (2014), incluindo firmas (como Doyola & Irmãos e F. Vita & Cia.) e a grafia da época. O próprio livro observa que, ao quadro inicial, "houve necessidade, mais tarde, de acrescentar mais acionistas".

Fontes e conflitos

Este episódio combina fonte primária e pesquisa acadêmica, e registra abertamente o que ainda está em disputa:

  • Número de acionistas. As três contagens — 113 (tradição/fonte oficial), 103 (ata de constituição) e 191–196 (Livro de Accionistas) — estão discutidas na seção “113, 103 ou 196?”, acima.
  • Diretor-técnico. O livro do centenário registra Gabriel Emílio Pacheco de Melo; parte da bibliografia grafa o nome de forma diferente. Mantemos a forma do livro.
  • Valores financeiros. Capital, debêntures e o total estimado (~290 contos) seguem a leitura das fontes primárias pela pesquisa; não há prestação de contas consolidada que feche o número com precisão.

Continue explorando

Fontes desta página

livro "Theatro Municipal, 100 anos" (Menezes, 2014), com a lei de 1912, os estatutos e a relação de acionistas; dissertação de Luis Pedro Dragão Jeronimo (USP, 2020), com base no Livro de Accionistas e na ata de constituição da Companhia Teatral Sanjoanense. Composição social, percentuais e valores seguem a leitura acadêmica das fontes primárias.