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Theatro MunicipalSão João da Boa Vista
A entrada do Bar Theatro no tempo do cinema, na Praça da Catedral.

Episódio · O uso real da casa (1914–1925)

6 min de leitura

Há uma imagem fácil do Theatro: a casa nobre onde a elite assistia a óperas, até "cair" no cinema. As páginas dos jornais da época contam outra história — mais democrática, e mais interessante. Desde a primeira temporada, o Theatro funcionou menos como teatro lírico e mais como politeama: um espaço de muitos usos, em que filme, opereta, baile e festival dividiam o mesmo palco.

Em um minuto: entre 1913 e 1925, a pesquisa de Luis Pedro Dragão Jeronimo no jornal O Município encontrou o Theatro presente em 75% das edições examinadas — e o que predominava eram os filmes, seguidos de atrações ao vivo, bailes e festivais. A Companhia, que não entendia do ramo, arrendava a casa para se proteger do risco. Grandes óperas completas foram exceção; o politeama era a regra. E o cinema, longe de decadência, foi o que manteve a casa funcionando.

Um nome de teatro, um corpo de politeama

A vocação múltipla estava prevista desde a lei. O incentivo municipal de 1912 falava em quem construísse "um theatro ou polytheama" — a palavra já admitia uma casa flexível, para teatro, cinema e diversões variadas. E os estatutos da Companhia, no ano seguinte, listavam entre seus fins "explorar diversões, inclusive o cinematógrafo".

Por isso a leitura mais precisa, proposta pela pesquisa acadêmica, é esta: o edifício tinha nome e forma de Theatro Municipal — palco à italiana, sala em ferradura, fachada de prestígio —, mas o uso real era de politeama. Comédias, dramas, operetas, ilusionismo, bailados, conferências, exposições no foyer e, sobretudo, cinema: tudo cabia ali.

O que entrava em cartaz

Os números dão a medida. Em um levantamento de 576 edições de O Município entre 1913 e 1925, o Theatro aparece em 433 delas (75,2%), com 553 menções. E, na contagem das atrações, os filmes predominam com folga sobre os espetáculos ao vivo (cerca de 67 eventos cênicos e musicais não cinematográficos no período), os festivais amadores e os bailes.

Por que tanto cinema? Custo e risco. Trazer companhias exigia contratos, transporte e cenários; o filme custava menos, alcançava mais gente e cabia no bolso do público. E o cinema era moderno — ver fitas, em 1914, ligava o público sanjoanense a uma cultura global de imagens. A casa também abria as portas para bailes de Carnaval, festivais beneficentes (em prol da Matriz, da Santa Casa, da Cruz Vermelha) e, em momentos de aperto, até para um ringue de patinação.

Uma festa de salão no Theatro, a plateia tomada pelos convidados.

Uma festa de salão no Theatro, a plateia tomada pelos convidados.

Arrendar para se proteger

Aqui a pesquisa revela algo que o mito não conta: a Companhia raramente operava o Theatro com as próprias mãos. Ela arrendava a casa — e os bares — a empresas especializadas. Nos anos 1920, esses arrendatários eram, em boa parte, imigrantes italianos, as mesmas empresas que exploravam também o Cine Guarany, numa espécie de monopólio do entretenimento na cidade.

A razão era estratégica. Nenhum acionista da Companhia entendia do ramo de espetáculos; todos viviam de café, comércio ou profissões liberais. Arrendar servia, nas palavras da análise acadêmica, para "blindar" a Companhia das críticas por eventuais fracassos de bilheteria e para garantir aos acionistas uma renda mínima sem o risco de uma má administração. Não à toa, quando o público reclamava da qualidade dos filmes, as críticas iam para as empresas arrendatárias — não para a Companhia, responsável apenas pelo prédio.

A pesquisa dá nomes e datas a essa cadeia. Em novembro de 1916, a casa foi arrendada à Empresa Cinematográfica São-Joanense Filardi & Companhia; em maio de 1918, Filardi associou-se a Ermette Piocchi e Antônio Balestrin, donos do cinema Ideal. Em 1919 a Companhia chegou a operar por conta própria; depois vieram a Empreza Sanjoanense de Diversões — que explorava também o Cine Guarany, anunciando “Municipal e Guarany” juntos — e, a partir de 1923, a Empresa Sousa e Godoy, que arrematou o contrato por 52 contos de réis.

Quando a cidade fechava as portas

Um politeama é um termômetro da cidade — e o Theatro sentia as crises. Em 1918, a epidemia de gripe espanhola atingiu São João: O Município noticiava doentes e falecidos, e a própria classe teatral organizou comissões de auxílio, num espaço que, sendo de aglomeração, era dos primeiros a fechar. Anos depois, a Revolução de 1924 voltou a interromper a agenda. Entre uma crise e outra, os bailes de Carnaval — como os de fevereiro e março de 1924 — devolviam a casa à festa.

Esses episódios mostram que o edifício não vivia isolado: sua programação respondia a epidemias, guerras civis e à economia do café. Quando a cidade adoecia ou se mobilizava, o palco sentia primeiro.

O público que faltava

Apesar de tudo, havia um problema persistente, e o livro do centenário não o esconde: "não obstante a boa qualidade das apresentações, era acentuada a indiferença do público e o crescente declínio da bilheteria". A casa fora construída para uma escala que a cidade nem sempre sustentava.

Essa é a tensão central da vida do Theatro: um prédio grandioso, pensado para mil e tantos lugares, diante de um público real mais modesto. É essa distância — entre a ambição de 1914 e a renda de cada noite — que explica o arrendamento, o peso do cinema e, mais tarde, a decadência.

A sala lotada em todos os pavimentos, em registro antigo.

A casa cheia nas grandes noites — a exceção festiva que contrastava com a frequência irregular do dia a dia.

Por que o cinema não é decadência

A narrativa nostálgica diz que o Theatro nasceu erudito e decaiu ao virar cinema. A pesquisa desmonta esse roteiro. Desde o primeiro mês, em 1914, as fitas já eram esteio da programação — e o cinema estava previsto na própria lei e nos estatutos. Quando, diante das dificuldades, a casa recebeu mais sessões, bailes e até patinação, não estava "caindo": estava se adaptando para continuar de pé.

A morte de um teatro não acontece quando ele muda de uso, mas quando deixa de importar para a cidade. O Theatro nunca deixou. Em 1937, a fase cinematográfica se consolidaria sob nova direção, ganhando a memória afetiva do CineTheatro — outra história, contada em seu próprio episódio.

Fontes e notas

  • Usos, proporções e o conceito de politeama: dissertação de Luis Pedro Dragão Jeronimo (USP, 2020), cap. II.4 — levantamento dos jornais O Município e A Cidade de São João (1913–1925).
  • Arrendamento e monopólio dos imigrantes: mesma dissertação, com base nos editais e nos nomes dos arrendatários.
  • "Indiferença do público": livro Theatro Municipal, 100 anos (2014), seção "Companhias artísticas".
  • Epidemia de 1918 e Revolução de 1924: O Município (ed. 660, 19/10/1918) e notas de 1924, citadas na dissertação.

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Fontes desta página

dissertação de Luis Pedro Dragão Jeronimo (USP, 2020), cap. II; livro "Theatro Municipal, 100 anos" (Menezes, 2014); periódicos O Município e A Cidade de São João.