
Episódio · A ópera que a cidade compôs para si (1932)
Quase todo teatro do interior recebeu, um dia, uma companhia de fora montando um clássico. Poucos podem dizer que a cidade compôs a sua própria ópera — letra, música, cenário e elenco feitos em casa. São João pode. Em 1932, sobre o palco do Theatro Municipal, estreou uma Branca de Neve escrita por um padre napolitano e cantada por professoras, alunos e amadores da terra. Quase um século depois, as partituras ainda existem.
Em um minuto: o padre Nicolau Fulgêncio Miranda, capelão da Santa Casa e diplomado pela Real Academia de Nápoles, viveu em São João de 1928 a 1933 e compôs uma versão operística da Branca de Neve. A obra estreou em 1932, com cenários de Herculano de Almeida e direção partilhada com Dona Beloca e Zilah Mattos; voltou ao cartaz nos anos 1950 sob Nascipe Murr. Suas partituras estão guardadas, em bom estado, no Museu de Arte Sacra.
Um padre-músico vindo de Nápoles
O autor não era um diletante. Nicolau Fulgêncio Miranda, de origem italiana, era diplomado em música pela Real Academia de Nápoles — excelente organista e compositor de peças sacras e eruditas. Chegou a São João da Boa Vista no fim dos anos 1920, designado capelão da Santa Casa de Misericórdia Dona Carolina Malheiros, no tempo do padre Josué. Morou na cidade de 1928 a 1933 — cinco anos apenas, mas suficientes para, nas palavras do livro do centenário, deixar "marcas inapagáveis no enriquecimento do nosso meio musical e artístico".
Como não poderia deixar de ser, o padre logo se enredou na vida musical local. Aproximou-se dos músicos da cidade e dos festivais beneficentes então promovidos por Dona Beloca — ao lado de Zilah Mattos, dona de uma bela voz de soprano, e do cenógrafo Herculano de Almeida. Idealizou e organizou inúmeros festivais, e ajudou em muitos outros; nessas noites, as músicas eram quase sempre de sua própria lavra, intercaladas com trechos de óperas do repertório.
A cidade que vivia de festivais
A Branca de Neve não nasceu do nada. Ela é o ponto alto de toda uma cultura de festivais artísticos que sustentava a vida do palco entre os anos de cinema — uma rede de trabalho voluntário, sobretudo feminino, contada à parte no episódio As mulheres do Theatro →.
O tamanho da ambição aparece num programa anterior, de 31 de março de 1931: um Festival Artístico organizado pelo padre Nicolau Miranda, com comédia na primeira parte e, na segunda, trechos de Il Trovatore, La Traviata e Favorita, mais composições do próprio padre, sob cenários de Herculano de Almeida. Não era pouca coisa pedir que cantores e instrumentistas locais enfrentassem Verdi e Donizetti numa cidade do interior. Foi nesse caldo — orquestra organizada, sopranos formados, um cenógrafo de casa e um compositor diplomado — que uma ópera inteiramente sanjoanense se tornou possível.

O programa de uma das noites dirigidas pelo padre Nicolau Miranda e por Dona Beloca — com a relação nominal dos músicos da orquestra. A cidade levava a sério a própria música.
1932: a estreia
O principal evento da passagem do padre por São João foi a opereta Branca de Neve, de sua composição — uma versão musical da história dos irmãos Grimm, com cenários do professor Herculano de Almeida. Estreou em 1932, com a direção partilhada entre o padre Nicolau Miranda, Herculano de Almeida e as senhoras Beloca Oliveira Costa e Zilah Mattos.
A escolha do conto não era ingênua. Montar Branca de Neve como ópera permitia reunir num só espetáculo tudo o que a cidade tinha de melhor: coro, solistas, orquestra, dança, figurino e a cenografia ilusionista de que Herculano era mestre — o espelho que fala, a floresta, o castelo. Era teatro total feito com gente da terra, e dava ao público popular um enredo que todos já conheciam, cantado pela primeira vez em música original. O Theatro deixava, por uma noite, de ser a casa onde se via o que vinha de fora: passava a ser a casa onde a cidade se ouvia.
A história que voltou: os anos 1950
Obra bem-sucedida não se encerra na estreia. A Branca de Neve foi reapresentada diversas vezes e, no início da década de 1950, voltou ao cartaz numa nova montagem — agora sob o comando do professor Nascipe Murr, à frente do Instituto de Educação Cel. Christiano Osório de Oliveira.
O depoimento de Lucila Martarello, recolhido no livro do centenário, guarda o calor daquela noite:
O Instituto de Educação Cel. Christiano Osório de Oliveira apresentou Branca de Neve sob o comando do professor Nascipe Murr. Foi um sucesso! O príncipe era um tenor profissional de Campinas. Moço lindo que arrebatou a plateia. A Branca de Neve foi Aline Bruno, além de Imá Oliveira, Geraldo Pradela, que fez o Espelho Mágico. O evento marcou o Theatro Municipal.
Vinte anos depois da estreia, a ópera composta pelo padre já era patrimônio afetivo da cidade — passada de uma geração de artistas a outra, do palco de 1932 ao de uma nova plateia.
As partituras que sobreviveram
Há um detalhe que transforma esta história de memória em documento: as partituras da opereta existem. Estão sob a guarda do Museu de Arte Sacra de São João da Boa Vista, em excelente estado de conservação. Não é um relato que dependa só de lembrança — é uma obra musical concreta, escrita à mão, à espera de quem a leia e, quem sabe, a faça soar de novo.
Por isso a Branca de Neve é, talvez, a página mais singular do repertório do Theatro: a prova de que a casa não viveu só de arte trazida de fora — aqui a cidade compôs a sua. E o conto seguiu voltando àquele palco — em 2009, uma nova Branca de Neve infantil ocupou a sala já restaurada, lembrando que algumas histórias a cidade nunca deixa de contar.

Branca de Neve volta ao palco — agora restaurado — em 2009. Quase oitenta anos depois da ópera do padre Nicolau, o mesmo conto reaparece na mesma casa.
Fontes e notas
- Fonte central: livro Theatro Municipal, 100 anos (Menezes, 2014) — verbete "Pe. Nicolau Miranda", a cronologia anual e o depoimento de Lucila Martarello ("Novos tempos").
- Data da estreia. O livro afirma que a opereta "estreou em 1932"; a cronologia registra a apresentação em 31 de março de 1932, com direção do padre Nicolau Miranda, Herculano de Almeida, Beloca Oliveira Costa e Zilah Mattos. Um Festival Artístico do mesmo padre, no ano anterior (31 de março de 1931), aparece como precursor.
- Cenógrafo. Grafado no livro ora "Herculano de Almeida", ora "Herculano Albuquerque"; adotamos Herculano de Almeida, forma predominante e registrada entre as pessoas do Theatro.
- As partituras no Museu de Arte Sacra são citadas pelo livro do centenário; uma transcrição ou execução moderna depende de consulta ao acervo.
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Fontes desta página
livro "Theatro Municipal, 100 anos" (Menezes, 2014), verbete Pe. Nicolau Miranda, cronologia (1931–1952) e seção Novos tempos.