
Episódio · O trabalho cultural feminino que sustentou a casa
As versões oficiais guardam os holofotes para coronéis, diretores e engenheiros. Mas, ano após ano, foram mulheres — quase sempre professoras — que encheram o palco do Theatro: ensaiando crianças, montando festivais, dirigindo corais e transformando arte em mobilização social. Sem elas, a casa teria ficado escura em boa parte do século XX. Este episódio reúne quatro delas, e a rede que vem antes e depois.
Em um minuto: por cerca de 25 anos, Dona Beloca liderou os espetáculos beneficentes do Theatro; nos anos 1920, Anésia Mattos montou ali o primeiro Dia da Criança do Brasil; Jaçanã Altair, escritora e criadora do teatro de bonecos local, dá nome à biblioteca que funcionou no prédio; e Miriam Pipano, vinda de Tel Aviv, formou gerações de músicos na sala da Sociedade de Cultura Artística. Some-se a elas as oito acionistas de 1913 e as professoras que, nos anos 1990, levaram estudantes às ruas pelo restauro.
Dona Beloca e os 25 anos de palco
Nos anos 1930, em pleno tempo áureo da arte na cidade, o Theatro era o centro das manifestações artísticas — e, à frente delas, Gabriela de Oliveira Costa, a Dona Beloca. Por aproximadamente 25 anos, ao longo das décadas de 1930, 40 e 50, ela montou inúmeros espetáculos de teatro, música e canto, quase sempre em prol da Casa da Criança, do Asilo e da Santa Casa. As peças, muitas do professor Herculano de Almeida, "envolviam passagens da vida da cidade", e os festivais reuniam canto, bailado, declamação e solos — sempre com intérpretes "saídos da vocação artística da comunidade".
Ao seu lado estavam nomes como Zilah e Isaura Mattos, Lucila Martarello e Roberto Balestrin. Em 1952, Dona Beloca dirigiu Sonhos de Fada: num grande livro cenográfico, de cujas páginas saíam o Gato de Botas, Pinóquio, Cinderela e Peter Pan, cada personagem tinha "um padrinho". Foi um espetáculo que marcou época — e o cineclube do Theatro, no século XXI, levaria o nome de Beloca em sua homenagem.

Gabriela de Oliveira Costa, a Dona Beloca — à frente dos espetáculos beneficentes do Theatro por cerca de 25 anos.

Lucila Martarello, a “prata da casa” — a fada de Sonhos de Fada (1952), dirigido por Dona Beloca.

O programa de “Sonhos de Fada” (1952), dirigida por Dona Beloca — documento do seu trabalho no Theatro.
Anésia Mattos e o primeiro Dia da Criança do Brasil
Já nos anos 1920, a professora Anésia Martins Mattos organizava, com os alunos do Grupo Escolar Joaquim José, festivais que primavam "pelo gosto das montagens, pela originalidade dos temas" — estes, em regra, de autoria de seu marido, Jonathas Mattos. Tudo era minuciosamente preparado: entonação da voz, gestos, trajes.
Em outubro de 1926, Anésia montou no Theatro, com os alunos do Externato São João, um espetáculo comemorativo do Dia da Criança — pela primeira vez no Brasil, quando a data mal havia sido implantada. Um coro de meninos de fraque, cartola e bengala, "Os Baroenzinhos", desenvolvia coreografia treinada; as meninas faziam o quadro das gueixas, em quimonos bordados. Outra criação sua, o bailado Vira-do-Minho, chegou a ser filmada e exibida em cinema.
Jaçanã Altair, a que deu nome à biblioteca
Nascida em São João da Boa Vista em 1904, Jaçanã Altair Pereira Guerrini foi professora primária, poetisa, contista, oradora e — raro para a época — professora de esperanto. Soprano, tocava piano, violino, violão, harmônica e bandolim, e introduziu o teatro de bonecos nas escolas. Escreveu o romance João Negrinho, transformado em filme nos anos 1950, e é patrona de uma cadeira da Academia de Letras local.
Seu vínculo com o Theatro é também físico: a Biblioteca Municipal Jaçanã Altair, que por décadas funcionou no segundo andar do edifício, leva o seu nome. A casa de espetáculos foi, por muitos anos, também a casa dos livros — e ambas carregam o nome de uma mulher.
Miriam Pipano e as gerações de músicos
Nascida em Tel Aviv, em 1926, e mudada para São João ainda menina, Miriam Pipano dedicou a vida a ensinar música. Diretora do Conservatório Guiomar Novaes, promoveu, a partir dos anos 1950, dezenas de espetáculos de ballet e música na sala da Sociedade de Cultura Artística, no segundo andar do Theatro. Nos anos 1980 criou o Madrigal São João. Como resume o livro do centenário, "a maioria dos sanjoanenses ligados à música tem alguma ligação com Miriam" — foram seus alunos ou partilharam com ela o prazer da música.
"Nunca suportou a rotina de dona de casa. (...) Uma mulher moderna e atuante — a música sempre falou mais alto em seu coração."

Miriam Pipano e seus alunos — décadas de formação musical na sala da Sociedade de Cultura Artística.
Oito acionistas — e as gerações seguintes
A presença feminina vinha desde a fundação: entre os investidores da Companhia Teatral Sanjoanense, em 1913, havia oito mulheres (veja o episódio da Companhia) — num tempo em que a vida pública era quase toda masculina, comprar ações de um teatro era um gesto de presença.
E o fio não se rompeu. Na campanha pelo restauro, nos anos 1990, foram as professoras Fafá Noronha, Maria José Moreira e Beatriz Castilho Pinto que lideraram o "Vestindo a Camisa", levando estudantes às ruas. No palco e na gestão, Vânia Noronha atravessa décadas — da menina que tocava piano aos seis anos à diretora de Cultura da cidade. Reunir essas trajetórias não é nostalgia: é corrigir o foco. O Theatro permaneceu vivo porque, em cada geração, mulheres decidiram cuidar dele.

Fafá Noronha e o Coral Canto na Boca, 2005 — a continuidade do trabalho cultural feminino no Theatro.
Fontes e notas
- Dona Beloca, Anésia, Jaçanã e Miriam Pipano: livro Theatro Municipal, 100 anos (2014), seções dedicadas a cada uma.
- Oito acionistas: dissertação de Luis Pedro Dragão Jeronimo (USP, 2020), com base no Livro de Accionistas; ver o episódio Quem pagou o Theatro.
- Vestindo a Camisa (1999): livro do centenário e revista Vernácula (2023).
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Fontes desta página
livro "Theatro Municipal, 100 anos" (Menezes, 2014); dissertação de Luis Pedro Dragão Jeronimo (USP, 2020).