
Episódio · 31 de outubro de 1914 e a primeira temporada
Depois de três anos de leis, ações, dívidas e obras, chegou a noite. Em 31 de outubro de 1914, a cidade entrou pela primeira vez na sala que havia construído para si — e se viu em gala. Mas a estreia trazia também uma ausência melancólica e um problema que assombraria o Theatro por décadas: o público, que lotou a inauguração, nem sempre voltaria.
Em um minuto: o Theatro foi inaugurado em 31 de outubro de 1914, com casa lotada, banda, discurso e a peça Uma Causa Célebre, da Companhia Santos Silva. Faltou à festa, porém, o idealizador José Evangelista de Almeida, já mudado para Santos. Na primeira temporada desfilaram grandes companhias em turnê — mas a bilheteria logo começou a minguar, e a casa precisou ser arrendada.
31 de outubro de 1914
Com "grande público lotando todas as suas dependências — da plateia às frisas, camarotes e galeria", deu-se na noite de 31 de outubro de 1914, às 20h30, a festiva inauguração. A abertura coube à banda do maestro Joaquim Azevedo. Em seguida, o orador Dr. Antônio Cândido de Oliveira proferiu, do camarote ocupado pela Diretoria da Companhia, um discurso que exaltava o trabalho dos fundadores e a obra como "afirmação de progresso cultural" da cidade.
Em cerimônia de gala, todos enfatizaram o que o livro do centenário registra sem modéstia: o Theatro Municipal era "o maior e melhor de todo o interior do Estado de São Paulo". A cidade do café se apresentava a si mesma — e à região, que veio assistir.

A sala em ferradura na noite da estreia, 31 de outubro de 1914: o palco iluminado ao fundo e a casa lotada, da plateia à galeria — raro registro fotográfico da inauguração.
Por trás da festa, porém, já havia o sinal dos apertos por vir: semanas antes de abrir, em 20 de setembro de 1914, a casa fora arrendada por dois anos a Francisco Galloti e F. Santamaría. O Theatro estreava — e já entregava a sua exploração a terceiros.

O jornal anuncia a inauguração — a cidade preparava a sua noite de gala.
A ausência do idealizador
Havia, porém, um lugar simbolicamente vazio. No camarote da Diretoria não estava José Evangelista de Almeida, o "idealizador e dinâmico empreendedor" que iniciara as obras: por motivos profissionais, ele se transferira para Santos meses antes. Suas despedidas haviam sido públicas — em 20 de junho de 1914, o jornal O Município registrara: "Esta cidade deve muito ao major José Evangelista de Almeida, o iniciador das obras do novo teatro."
O livro chama isso de "o registro melancólico da grandiosa inauguração": o homem que sonhara e tocara a obra não esteve na plateia para vê-la abrir.
Uma Causa Célebre
Para a estreia foi contratada a Companhia Dramática Teatral do português Santos Silva, que apresentou Uma Causa Célebre. A companhia não veio só para a noite inaugural: permaneceu na cidade até dezembro, encenando ainda A Filha do Saltimbanco, Sensitiva, Na Cara do Pai e a opereta Os Sinos de Corneville.
Era assim que o teatro itinerante funcionava: as companhias ficavam vários dias, com vasto repertório, dentro de uma turnê que costumava passar por Mococa, São João da Boa Vista e terminar em Poços de Caldas. O Theatro sanjoanense entrava, desde a primeira noite, num circuito regional de arte.
A cidade também subia ao palco
A vida do Theatro não dependia só das companhias de fora. Ainda em 1914 estreava o grêmio dramático Amor à Arte, que atuou com frequência no palco naquele ano. E, em 23 de janeiro de 1915, o jornal A Cidade de São João noticiava um espetáculo beneficente em favor da Igreja Matriz, feito por "distintas senhoritas e moços da sociedade sanjoanense" — muitos subindo "pela primeira vez à luz da ribalta".
"Os jovens atores saíram-se com brilhantismo admirável, proporcionando à numerosa assistência uma verdadeira festa de arte."
Desde o início, portanto, o palco foi também da cidade: amadores, corais e festivais beneficentes transformavam talento local em mobilização comunitária — uma vocação que o Theatro nunca perderia.

Atores em cena — a vida teatral das primeiras décadas, entre companhias de turnê e a "prata da casa".
As grandes companhias — e o público que faltou
Pelo palco passaram, nos primeiros anos, companhias de prestígio: além da Santos Silva, vieram o Trio da Graça, a Companhia Pasquali de Roma, a Savoia, a de Alzira Leão, a Città di Roma, a de Jayme Costa, a Companhia Italiana de Operetas Clara Weiss, entre tantas. No início dos anos 1920, a Companhia Zapparolli trouxe maestro, tenores e um repertório de operetas.
Mas aqui o livro é honesto, e nós também devemos ser: "não obstante a boa qualidade das apresentações, era acentuada a indiferença do público e o crescente declínio da bilheteria". A casa fora pensada para uma escala que o público nem sempre sustentou. Essa tensão — entre a grandiosidade do prédio e a renda real — marcaria toda a sua história, e explica por que, tão cedo, o Theatro precisou recorrer ao arrendamento e ao cinema para sobreviver.

O público de gala — a plateia que lotava as grandes noites, mas que nem sempre voltava no cotidiano.
Fontes e notas
- A noite, o discurso e a peça: livro Theatro Municipal, 100 anos (2014), seção "Inauguração"; citação de O Município (20/06/1914) e de A Cidade de São João (23/01/1915) reproduzidas no livro.
- Data. Adotamos 31 de outubro de 1914, conforme o livro do centenário e o jornal da época; páginas institucionais registram 8 de novembro. A divergência está detalhada na página de Pesquisa e fontes.
- Orador. O livro nomeia "Dr. Antônio Cândido de Oliveira"; parte da bibliografia grafa "Antônio Cândido de Oliveira Filho".
- Finanças e arrendamento (debêntures de 1915, consórcio dos cinemas Ideal e Bijou) são tratados em detalhe no episódio Quem pagou o Theatro.
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Fontes desta página
livro "Theatro Municipal, 100 anos" (Menezes, 2014), seções Inauguração, Arrendamento, Entidades promovem festivais e Companhias artísticas; periódicos de 1914–1915 citados no livro.