
Episódio · O prédio como ecossistema cultural
Quem pensa no Theatro só como uma sala de espetáculos perde metade da história. Por décadas, sobretudo no segundo andar e no térreo, o edifício abrigou um ecossistema cultural inteiro: uma sociedade de artes com piano de cauda e livro de ouro, uma escola de teatro com três mil livros, uma rádio com auditório ao vivo, a Biblioteca Municipal e o lendário Bar Theatro. Este episódio reúne esses outros moradores da casa.
Em um minuto: o segundo andar do Theatro foi, por gerações, um "laboratório cultural" — abrigou a Sociedade de Cultura Artística (1930), a Sociedade Cultural de Debates (1951), o Teatro-Escola (1950), a Rádio Difusora ZYJ-6 (1958–1963) e, depois, a Biblioteca Municipal. No térreo ficava o Bar Theatro, ponto de encontro de toda a cidade. Essa vida múltipla ajuda a explicar por que o prédio nunca saiu da memória sanjoanense.
Um prédio, muitos ofícios
O Theatro nunca foi um edifício de uso único. Enquanto o palco recebia filmes e companhias, as salas anexas seguiam seu próprio compasso — e o segundo andar, em especial, virou um verdadeiro laboratório cultural, passando de mãos em mãos entre sociedades, escolas, uma rádio e a biblioteca. Era cultura, estudo, lazer e convívio sob o mesmo teto.
A Sociedade de Cultura Artística
No fim dos anos 1920, um grupo de idealistas sentiu falta de "uma associação que cuidasse das lides artísticas mais puras e elevadas". Nascia a Sociedade de Cultura Artística, instalada no segundo andar do Theatro — no mesmo espaço onde antes funcionara um bar. Em 20 de janeiro de 1930, tomou posse a primeira diretoria, presidida por Gilberto Nóbrega, gerente do Banco do Brasil local.
Era um ambiente de saraus — declamação, canto, instrumentos — mas também de estudo: nos cantos, mesas com tabuleiros de xadrez e dama, e a regra de falar à meia-voz "para não perturbar os estudiosos". Tinha uma enorme biblioteca e um piano de cauda. Os convidados ilustres registravam suas impressões num livro de ouro — entre eles o historiador Afonso Taunay, o poeta Guilherme de Almeida e Maria José Dupré, autora de Éramos Seis. Foi um deles, o poeta Caruso Neto, quem deu a São João o cognome "Cidade dos Crepúsculos Maravilhosos".
"No meio disso tudo, o sorriso espiritual da Sociedade de Cultura Artística, expressão do alto apreço que este povo consagra à Inteligência e à Arte." — livro de ouro, 1947

A vida intelectual no segundo andar — sessões e palestras que conviviam com o cinema do térreo.
Pelos saraus passaram nomes de primeira grandeza: no documentário, um frequentador lembra que "a apresentação mais impressionante foi a de Heitor Villa-Lobos". Quando o cinema deixou de ser mudo, foi para essa sala que subiu o piano que antes acompanhava as fitas. E, para mais de um de seus herdeiros, a Sociedade foi "o núcleo formador da nossa Academia de Letras".
Debates e o Teatro-Escola
Em 1951 surgiu a Sociedade Cultural de Debates, que dividia o mesmo pavimento — e que foi a fundadora do Teatro-Escola, em 1950. A escola chegou a ter mais de 200 associados, piano de cauda e uma biblioteca de 3.000 volumes. Reuniu os amadores da cidade e formou gente de palco; em 1957, sua peça Transviados foi um sucesso, e dali nasceu o grupo GAMA. Em visita a São João, em 1961, o ator Procópio Ferreira elogiou o grupo; entre os que passaram pelo Theatro destacou-se Atílio Eduardo Gallo Lopes, que viria a brilhar em palcos da Europa.
Há um vestígio comovente dessa escola: as inscrições deixadas pelos alunos na lateral do palco, em 1957, que sobreviveram a tudo e foram preservadas durante o restauro — pequenas marcas humanas que a obra escolheu não apagar.

As assinaturas dos alunos do Teatro-Escola, de 1957, na lateral do palco — preservadas no restauro.
A rádio no segundo andar
Entre 1958 e 1963, o prédio abrigou a Rádio Difusora ZYJ-6, com um auditório que recebia apresentações musicais ao vivo — como o conjunto Nin e seus Rocketes. O detalhe é poético: o Theatro, que sempre fora lugar de receber espetáculos, virou também lugar de transmitir — o som que antes ficava preso na sala passava a circular pela cidade pelas ondas do rádio.
O rádio, aliás, chegou ao prédio bem antes. Já em 1921, o engenheiro Newton de Castro, pioneiro da radiodifusão na cidade, transferiu para os altos do Theatro um de seus aparelhos, com antena ligada à torre da Igreja Matriz — três décadas antes da Difusora.
Por ali passaram nomes de fora e de dentro: em 1959, o cantor e compositor Dorival Caymmi apresentou-se e deixou registrada sua impressão — "Sua cidade é deveras acolhedora, tanto quanto simpática". E foi nesse auditório que uma menina de seis anos, Vânia Noronha, tocou piano — a mesma que, décadas depois, dirigiria a cultura da cidade.

O auditório da Rádio Difusora, no segundo andar — o Theatro também como lugar de transmitir.

Nin e seus Roquetes ao vivo no auditório da Rádio Difusora ZYJ-6, sob o letreiro da emissora, no segundo andar do Theatro.
A biblioteca e o bar
A partir de 1963, com a saída da rádio, o mesmo pavimento passou a abrigar a Biblioteca Municipal, que ali ficou até o fechamento do prédio, tendo como bibliotecária a professora Isaura Backstron. O antigo espaço de espetáculo virava casa de leitura — uma continuidade cultural por outro caminho.
E, no térreo, na frente do edifício, havia o Bar Theatro — ponto de encontro de gerações, com seus balcões de mármore, ligado à memória afetiva de quem ia ao cinema. Entre o livro no andar de cima e o café no térreo, o Theatro era parte da rotina mesmo de quem não ia ao espetáculo.

O interior do antigo Bar Theatro — ponto de encontro da cidade, no térreo do edifício.
Por que isso importa
Esses usos podem parecer laterais, mas são decisivos para entender a sobrevivência do Theatro. Mesmo quando o palco perdia força, o edifício continuava presente na rotina: era onde se ia ao cinema, se ouvia rádio, se entrava no bar, se buscava um livro, se debatia, se aprendia teatro.
Um prédio que faz parte do cotidiano de tanta gente não vira facilmente entulho. Quando a demolição rondou, nos anos 1980, foi essa memória acumulada — de mil pequenos usos, no térreo e no segundo andar — que a cidade se recusou a perder.
Fontes e notas
- Sociedade de Cultura Artística, livro de ouro, Teatro-Escola, GAMA, Rádio Difusora, Caymmi e Biblioteca: livro Theatro Municipal, 100 anos (Menezes, 2014), seções dedicadas a cada um.
- Inscrições do Teatro-Escola (1957): registradas na lateral do palco e preservadas no restauro.
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Fontes desta página
livro "Theatro Municipal, 100 anos" (Menezes, 2014); Maria Célia Marcondes, "Arte e Cultura em São João da Boa Vista" (citada no livro, sobre Caymmi).