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Theatro MunicipalSão João da Boa Vista
O Theatro e o posto vizinho na década de 1950, no tempo do Cine Theatro.

Episódio · A tela, o domingo e a memória (1937–1982)

6 min de leitura

Para a maior parte dos sanjoanenses vivos, o Theatro não é a casa de ópera de 1914 — é a sala de cinema do centro, com seus domingos de matinê, os heróis de bang-bang e o cheiro de bombom na entrada. Essa fase, mais cotidiana e menos solene, durou quatro décadas e deixou a memória afetiva mais funda do edifício. Ela merece um episódio próprio.

Em um minuto: em 1937 o Theatro, já deteriorado aos 23 anos, foi fechado e teve a maioria das ações comprada por Joaquim José de Oliveira Neto, que o reequipou como cinema. Vieram quatro sessões diárias, os filmes de Hollywood e os seriados de Flash Gordon que enchiam a casa. Mas o cinema nunca foi lucrativo; a concorrência de salas novas e a televisão levaram o Cine Theatro à decadência e ao fechamento, abrindo caminho para a quase-demolição dos anos 1980.

1937: a tela vence o palco

O cinema já dividia o palco do Theatro desde 1914. Mas foi em 1937 que ele virou a vocação dominante. Naquele ano, o prédio — "já bastante deteriorado", segundo o livro do centenário, com apenas vinte e três anos — foi fechado, e a maioria das ações da Companhia Teatral Sanjoanense foi comprada pelo Dr. Joaquim José de Oliveira Neto. Compraram-se poltronas novas e modernos equipamentos cinematográficos da Philips.

O documentário guarda a história de como essas ações chegaram a Oliveira Neto. A grande crise do café, em 1930, deixou muitos acionistas endividados com o banqueiro local Cristiano Osório de Oliveira, e eles foram lhe entregando as cotas — que, àquela altura, "não valiam nada". Boa parte desses papéis acabou com Dona Tita de Oliveira, que os passou ao sobrinho predileto. Formado em medicina no Rio de Janeiro, Oliveira Neto nunca quis clinicar: entregou o diploma à própria tia — "vocês querem diploma de médico? está aí; eu nunca vou ser médico" — e seguiu a vocação de professor. Foi ele quem, por cerca de quatro décadas, manteve a casa de portas abertas como cinema.

Começava ali a era do Cine Theatro, em que a casa passou a funcionar "quase que exclusivamente como cinema", em quatro sessões diárias: matinê, vesperal e duas sessões noturnas.

Três mil pessoas e quatro sessões

A sétima arte entusiasmava a cidade. Pela tela passavam os filmes da Metro, da Fox, da Universal e da United Artists — e, sobretudo, os famosos seriados de Flash Gordon, que, segundo o livro, chegavam a encher a plateia com mais de três mil pessoas divididas entre as quatro sessões. Para uma cidade do interior, era um público enorme — e a prova de que o cinema, longe de "rebaixar" o Theatro, foi o que o manteve no centro da vida sanjoanense.

A fachada na época do Cine Theatro, com cartazes de cinema no térreo.

A fachada na época do Cine Theatro, com os cartazes de cinema no térreo.

Um domingo no Cine Theatro

A textura desse tempo sobrevive nas memórias de quem frequentou. A sanjoanense Clineida Andrade Junqueira Jacomini deixou, no livro do centenário, um relato precioso: aos domingos havia duas sessões noturnas, às 19h30 e às 21h, e a matinê da tarde, "geralmente com desenhos animados" — quase sempre Tom e Jerry — e a vesperal de filmes "de bang-bang e até em série", com John Wayne, Gary Cooper e Alan Ladd prendendo a meninada.

Naquela época, lembra ela, "não existiam as atuais frisas e camarotes": era um espaço só. Entrando, à esquerda, ficava "a oferta tentadora de balas e chocolates do Budri" — o bombom Cremona, os drops Dulcora embrulhados um a um, a bala Chita "com a carinha da macaca". A pipoca, essa, só do lado de fora. Embutido na parede, o guichê de ingressos — dois, "tanta era a procura". E havia o ritual dos namoros: as moças iam "aos bandos", guardavam lugar, e eles chegavam "depois que as luzes se apagavam e a música de sempre começava". Na frente, à esquerda, o bar do Sr. Arnaldo Posi, que tocava violão elétrico nas orquestras locais.

"Era hábito comum e generalizado ir ao cinema num tempo em que Hollywood estava no auge, seus artistas idem, e não havia ainda televisão. Novelas, só pelo rádio."

Clineida Andrade Junqueira Jacomini.

Clineida Andrade Junqueira Jacomini — foi o relato dela que preservou a memória dos domingos no Cine Theatro.

Flávio, o faz-tudo

Nenhuma figura encarna melhor o Cine Theatro do que Flávio Nogueira. No pequeno espaço junto à cabine de projeção, ele era, ao mesmo tempo, bilheteiro, porteiro e — na falta do encarregado — projecionista. Cabia a ele receber as fitas, que chegavam em grandes estojos de metal, trazidas do escritório da Viação Cometa por um charreteiro. Durante o dia, Flávio rodava os filmes para conferir se não estavam partidos, emendava o que fosse preciso e, nessa checagem, acabava assistindo a tudo antes do público.

Foi numa dessas conferências que nasceu uma pequena lenda. Um filme sobre um grupo de amigos na Guerra Civil americana chegou sem o título em português. Flávio nem se importou com o original — The Seven Friends — e, "com o capricho e a perfeição que lhe eram peculiares", escreveu o próprio letreiro: "SÓ UM VOLTOU!". Em vez de protestar, o público gostou: ganhou suspense de graça.

A bilheteria — porta de entrada para as noites de espetáculo e cinema.

A bilheteria embutida na parede — o posto de Flávio Nogueira, o "faz-tudo" do Cine Theatro.

O calcanhar de Aquiles

Apesar das casas cheias, o dinheiro nunca fechou. "Dada sua invejável estrutura e grandiosidade, a parte financeira sempre foi o calcanhar de Aquiles do empreendimento", resume o livro — e nem o cinema permanente o tornou lucrativo. Com o tempo, abriram-se salas mais novas, de poltronas confortáveis e equipamentos sofisticados; a concorrência de preços, a dificuldade de exibir filmes nacionais e o advento da televisão empurraram o Cine Theatro para a decadência. Houve até uma tentativa frustrada de transformá-lo de novo em salão de bailes populares, antes de ele acabar fechado.

Nos anos finais, já disputando público com o Cine Avenida (hoje Casas Pernambucanas) e o Cine Ouro Branco, e exibindo filmes de menor apelo, o prédio chegou a ser tratado com desdém — a pesquisa acadêmica registra o apelido amargo de "pulgueiro". O mesmo edifício saudado em 1914 como "atestado de civilização" virou, para parte da cidade, lugar a evitar. Em 1982, o Cine Theatro fechou as portas.

A porta do antigo Bar Theatro, já em avançada decadência.

A porta do antigo Bar Theatro, em avançada decadência — o prédio nos seus anos finais de cinema.

A retirada da tela de cinema no palco.

A tela de cinema sendo retirada do palco — ao parar de ser cinema, o edifício pôde voltar a ser teatro.

O que o cinema deixou

É tentador contar essa fase como queda — do palco nobre à sala "pulgueiro". Mas é o contrário: foram os quarenta anos de cinema que mantiveram o Theatro vivo e no centro da rotina, e foi a memória acumulada nesses domingos — a do Budri, a do Flávio, a dos namoros no escuro — que tornou impensável, para tantos, deixar o prédio virar entulho. Quando a demolição rondou, nos anos 1980, foi também essa lembrança afetiva que a cidade se recusou a perder.

E há uma justiça poética no fechamento: ao parar de ser cinema, o edifício pôde voltar a ser teatro. A decadência do Cine Theatro foi o fundo do poço de onde nasceu a mobilização que o salvou.

Fontes e notas

  • Memória do cinema, sessões e bombons: depoimento de Clineida Andrade Junqueira Jacomini, no livro Theatro Municipal, 100 anos (2014).
  • Flávio Nogueira: relato de Antonio Carlos Antoniazzi, em Rádio Piratininga — Casos e Causos, reproduzido no livro do centenário.
  • 1937, Oliveira Neto, equipamentos Philips e as quatro sessões: livro do centenário.
  • Apelido "pulgueiro" e concorrência datada (Cine Avenida, 1944; Cine Ouro Branco, 1970): dissertação de Luis Pedro Dragão Jeronimo (USP, 2020) — não constam com essas datas no livro do centenário.

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Fontes desta página

livro "Theatro Municipal, 100 anos" (Menezes, 2014), depoimentos de Clineida A. J. Jacomini e de A. C. Antoniazzi; dissertação de Luis Pedro Dragão Jeronimo (USP, 2020).